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domingo, 16 de março de 2014

G. K. Chesterton: Porquê me converti ao catolicismo



Embora eu seja católico há apenas alguns anos, sei que o problema "por quê sou católico" é muito diferente do problema "por quê me converti ao catolicismo". Tantas coisas motivaram minha conversão e tantas outras continuam surgindo depois... Todas elas se colocam em evidência apenas quando a primeira nos dá o empurrão que conduz à conversão mesma.

Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no final das contas, o motivo originário e primordial pode chegar a parecer quase insignificante e secundário. A "confirmação" da fé, vale dizer, seu fortalecimento e afirmação, pode vir, tanto no sentido real como no sentido ritual, depois da conversão. O convertido não costuma recordar mais tarde de que modo aquelas razões se sucediam umas após as outras. Pois breve, muito breve, este sem número de motivos chega a se fundir em uma só e única razão.

Existe entre os homens uma curiosa espécie de agnósticos, ávidos esquadrinhadores da arte, que averiguam com sumo cuidado tudo o que em uma catedral é antigo e tudo o que nela é novo. Os católicos, ao contrário, outorgam mais importância ao fato de se a catedral foi construída para voltar a servir como o que é, quer dizer, como catedral.

Uma catedral! A ela se parece todo o edifício de minha fé; desta minha fé que é grande demais para uma descrição detalhada; e da que, com grande esforço, posso determinar as idades de suas diversas pedras.Apesar de tudo, estou seguro de que a primeira coisa que me atraiu ao catolicismo, era algo que, no fundo, deveria ter me afastado dele. Estou convencido de que vários católicos devem seus primeiros passos à Roma à amabilidade do defunto senhor Kensit.

O senhor Kensit, um pequeno livreiro da City, conhecido como protestante fanático, organizou em 1898 um bando que, sistematicamente, assaltava as igrejas ritualistas e perturbava seriamente os ofícios. O senhor Kensit morreu em 1902 por causa das feridas recebidas em um desses assaltos. Logo a opinião pública se voltou contra ele, classificando como "Kensitite Press" os piores panfletos anti-religiosos publicados na Inglaterra contra Roma, panfletos carentes de todo são juízo e de toda boa vontade.

Lembro especialmente agora estes dois casos: alguns autores sérios lançavam graves acusações contra o catolicismo, e, curiosamente, o que eles condenavam me pareceu algo precioso e desejável.

No primeiro caso —acredito que se tratava de Horton e Hocking— mencionavam com estremecido pavor, uma terrível blasfêmia sobre a Santíssima Virgem de um místico católico que escrevia: "Todas as criaturas devem tudo a Deus; ma a Ela, até mesmo Deus deve algum agradecimento". Isto me sobressaltou como um som de trombeta e me disse quase em voz alta: "Que maravilhosamente dito!" Parecia com se o inimaginável fato da Encarnação pudesse com dificuldade encontrar expressão melhor e mais clara que a sugerida por aquele místico, sempre que soubesse entendê-la.

No segundo caso, alguém do jornal "Daily News" (então eu mesmo ainda era alguém do "Daily News"), como exemplo típico do "formulismo morto" dos ofícios católicos, citou o seguinte: um bispo francês havia se dirigido a alguns soldados e operários cujo cansaço físico lhes tornava dura assistência na Missa, dizendo-lhes que Deus se contentaria apenas com sua presença, e que lhes perdoaria sem dúvida seu cansaço e sua distração. Então eu disse outra vez a mim mesmo: "Que sensata é essa gente! Se alguém corresse dez léguas por mim, eu estaria muito agradecido, também, que dormisse em seguida em minha presença".

Junto com estes dos exemplos, poderia citar ainda muitos outros procedentes daquela primeira época em que os incertos indícios de minha fé católica se nutriram quase com exclusividade publicações anti-católicas.

Tenho uma clara lembrança do que veio em seguida a estes indícios. É algo do qual me dou tanto mais conta quanto mais desejaria que não tivesse ocorrido. Comecei a marchar para o catolicismo muito antes de conhecer àquelas duas pessoas excelentíssimas a quem, a este respeito, devo e agradeço tanto: ao reverendo Padre John O'Connor de Bradford e ao senhor Hilaire Belloc; mas o fiz sob a influência de meu acostumado liberalismo político; o fiz até na toca do "Daily News".

Este primeiro empurrão, depois de dever-se a Deus, deve-se à história e à atitude do povo irlandês, apesar de que não haja em mim uma só gota de sangue irlandês.

Estive apenas duas vezes na Irlanda e não tenho nem interesses ali nem sei grande coisa do país. Mas isso não me impediu de reconhecer que a união existente entre os diferentes partidos da Irlanda deve-se no fundo a uma realidade religiosa, e que é por esta realidade que todo meu interesse se concentrava nesse aspecto da política liberal.

Fui descobrindo cada vez com maior nitidez, conhecendo pela história e por minhas próprias experiências, como, durante longo tempo se perseguiu por motivos inexplicáveis a um povo cristão, e continua odiando-lhe. Reconheci então que não podia ser de outra maneira, porque esses cristãos eram profundos e incômodos como aqueles que Nero jogou aos leões.

Creio que estas minhas revelações pessoais evidenciam com claridade a razão de meu catolicismo, razão que logo foi se fortificando. Poderia acrescentar agora como continuei reconhecendo depois, que a todos os grandes impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a todos aqueles seres que desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo experimentavam a sensação de estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se libertar. Na Prússia há tão pouca perspectiva para o prussianismo, como em Manchester para o individualismo manchesteriano.

Todo mundo sabe que a um velho povoado agrário, arraigado na fé e nas tradições de seus antepassados, espera-lhe um futuro maior ou pelo menos mais simples e mais direto ou pelo menos mais simples e mais direto que aos povos que não têm por base a tradição e a fé. Se este conceito se aplicasse a uma autobiografia, seria muito mais fácil escrevê-la do que se fosse esquadrinhar suas diversas evoluções, mas o sistema seria egoísta. Eu prefiro escolher outro método para explicar breve, mas completamente o conteúdo essencial de minha convicção: não é por falta de material que atuo assim, mas pela dificuldade e escolher o mais apropriado entre todo esse material numeroso. Entretanto tratarei de insinuar um ou dois pontos que me causaram uma especial impressão.

Há no mundo milhares de modos de misticismo capazes de enlouquecer o homem. Mas há uma só maneira entre todas de colocar o homem em um estado normal. É certo que a humanidade jamais pôde viver um longo tempo sem misticismo. Até os primeiros sons agudos da voz gelada de Voltaire encontraram eco em Cagliostro.

Agora a superstição e a credulidade voltaram a expandir-se com tanta vertiginosa rapidez, que dentro de pouco o católico e o agnóstico se encontrarão lado a lado. Os católicos serão os únicos que, com razão, poderão chamar-se racionalistas. O próprio culto idolátrico pelo mistério começou com a decadência da Roma pagã apesar dos "intermezzos" de um Lucrécio ou de um Lucano.

Não é natural ser materialista e tampouco sê-lo dá uma impressão de naturalidade. Tampouco é natural contentar-se unicamente com a natureza. O homem, pelo contrário, é místico. Nascido como místico, morre também como místico, principalmente se em vida foi um agnóstico. Enquanto que todas as sociedades humanas consideram a inclinação ao misticismo como algo extraordinário, tenho eu que objetar, entretanto, que uma só sociedade entre elas, o catolicismo, leva em conta as coisas cotidianas. Todas as outras as deixam de lado e as menosprezam.

Um célebre autor publicou mais uma vez uma novela sobre a contraposição que existe entre o convento e a família (The Cloister and the hearth). Naquele tempo, há 50 anos, era realmente possível na Inglaterra imaginar uma contradição entre essas duas coisas. Hoje em dia, a assim chamada contradição, chega a ser quase um estreito parentesco. Aqueles que em outro tempo exigiam a gritos a anulação dos conventos, destroem hoje sem dissimulação a família. Este é um dos tantos fatos que testemunham a seguinte verdade: que na religião católica, os votos e as profissões mais altas e "menos razoáveis" —por assim dizer— são, entretanto, os que protegem as melhores coisas da vida diária.

Muitos sinais místicos sacudiram o mundo. Mas uma só revolução mística o conservou: o santo está ao lado do superior, é o melhor amigo do bom. Toda outra aparente revelação se desvia por fim a uma ou outra filosofia indigna da humanidade; a simplificações destrutoras; ao pessimismo, ao otimismo, ao fatalismo, à nada e outra vez ao nada; ao "nonsense", à insensatez.

É certo que todas as religiões contêm algo bom. Mas o bom, a quinta essência do bom, a humildade, o amor e o fervoroso agradecimento "realmente existente" para com Deus, não se encontram entre elas. Por mais que as penetremos, por mais respeito que lhes demonstremos, com maior claridade ainda reconhecemos também isto: nos mais profundo delas há algo diferente do puramente bom; há às vezes dúvidas metafísicas sobre a matéria, às vezes havia nelas a voz forte da natureza; outras, e isto no melhor dos casos, existe um medo da Lei e do Senhor.

Se exageramos tudo isto, nasce nas religiões uma deformação que chega até o diabolismo. Só podem ser suportadas enquanto se mantiver razoáveis e medidas.

Enquanto estiverem tranqüilas, podem chegar a ser estimadas, como aconteceu com o protestantismo vitoriano. Pelo contrário, a mais alta exaltação pela Santíssima Virgem ou a mais estranha imitação de São Francisco de Assis, seguiriam sendo, em sua quinta-essência, uma coisa sadia e sólida. Ninguém negará por isso seu humanismo, nem desprezará a seu próximo. O que é bom, jamais poderá chegar a ser Bom DEMAIS. Esta é uma das características do catolicismo que me parece singular e ao mesmo tempo universal. Esta outra a segue:

Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da destrutiva e humilhante escravidão de ser filho de seu tempo. Outro dia, Bernard Shaw expressou o nostálgico desejo de que todos os homens vivessem trezentos anos em civilizações mais felizes. Tal frase nos demonstra como os santarrões só desejavam —como eles mesmos dizem- reformas práticas e objetivas.

Agora bem: isto se diz com facilidade; mas estou absolutamente convencido do seguinte: se Bernard Shaw tivesse vivido durante os últimos trezentos anos, teria se convertido há muito tempo ao catolicismo. Teria compreendido que o mundo gira sempre com a mesma órbita e que pouco se pode confiar em seu assim chamado progresso. Teria visto também como a Igreja foi sacrificada por uma superstição bíblica, e a Bíblia por uma superstição darwinista. E um dos primeiros a combater estes feitos tivesse sido ele. Seja como for, Bernard Shaw desejava para cada um uma experiência de trezentos anos. E os católicos, muito ao contrário de todos os outros homens, têm uma experiência de dezenove séculos. Uma pessoa que se converte ao catolicismo, chega, pois, a ter de repente dois mil anos.

Isto significa, se o presenciamos ainda mais, que uma pessoa, ao se converter, cresce e se eleva ao pleno humanismo. Julga as coisas do modo como elas comovem a humanidade, e a todos os países e em todos os tempos; e não somente segundo as últimas notícias dos diários. Se um homem moderno diz que sua religião é o espiritualismo ou o socialismo, esse homem vive integramente no mundo mais moderno possível, quer dizer, no mundo dos partidos.

O socialismo é a reação contra o capitalismo, contra a insana acumulação de riquezas na própria nação. Sua política seria de todo diversa se fosse vivida em Esparta ou no Tibet. O espiritualismo não atrairia tampouco a atenção se não estivesse em contradição deslumbrante com o material estendido em todas as partes. Tampouco teria tanto poder se os valores sobrenaturais fossem mais reconhecidos. 

Jamais a superstição tem revolucionado tanto o mundo como agora. Só depois que toda uma geração declarou dogmaticamente e de uma vez por todas, a IMPOSSIBILIDADE de que haja espíritos, a mesma geração deixou-se assustar por um pobre, pequeno espírito. Estas superstições são invenções de seu tempo —poderia se dizer em sua desculpa—. Já faz muito, entretanto, que a Igreja Católica tenha aprovado não ser ela uma invenção de seu tempo: é a obra de seu Criador, e continua sendo capaz de viver o mesmo em sua velhice como em sua primeira juventude: e seus inimigos, no mais profundo de suas almas, perderam já a esperança de vê-la morrer algum dia.

G. K. Chesterton

sábado, 1 de março de 2014

Um alerta de Joaquim Barbosa...





Creio de fato que todos já tiveram a oportunidade de ler a fala do Presidente do STF, Ministro Joaquim Barbosa, a respeito da absolvição acintosa dos bandidos do Mensalão petista do crime de formação de quadrilha. Porém, nunca é demais lembrar de avisos e alertas que podem valer-nos a vida futuramente. Eis um aviso, direto, de alguém que até o momento tem sua moral ilibada. Com a palavra, Joaquim Barbosa:

Esta é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal, porque, com argumentos pífios, foi reformada, jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012. Peço vênia à maioria que se formou e voto pela rejeição dos embargos infringentes.
Uma maioria de circunstância, formada sob medida para lançar por terra todo o trabalho primoroso levado a cabo por esta corte no segundo semestre de 2012. É a isso que nós acabamos de assistir. Inventou-se inicialmente um recurso regimental totalmente à margem da lei com o objetivo específico de anular, de reduzir a nada um trabalho que fora feito. Sinto-me autorizado a alertar a nação de que este é apenas o primeiro passo. Essa maioria de circunstância tem todo o tempo a seu favor para continuar na sua sanha reformadora.

Espero que estas palavras tenham ganhado eco em vossas mentes, agora e desde já, inebriadas com todos os prazeres que tem a vos oferecer a única manifestação na qual o Brasil é especialista: O carnaval!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Eu sou uma ucraniana!



Não deixem de assistir estes dois minutos de vídeo, onde uma Ucraniana conta o que querem os corações dos ucranianos, fartos dos mandos e desmandos de Putin.


Compartilhem!

A URSS oculta

Artigo de autoria de Jeffrey Nyquist, diretamente da Rússia, que dá uma noção bem ampla do que realmente está acontecendo na Ucrânia.



Por conta da habilidade da KGB de se infiltrar nos movimentos que faziam oposição a Moscou, todas as revoluções ou mudanças políticas no extinto bloco soviético são enigmáticas. Nunca podemos estar certos sobre quem de fato ganhou até sabermos – após um longo tempo – em quais mãos está o poder.

Na última semana Tennent “Pete” Bagley faleceu. Ele foi uma pessoa importante na história da CIA, especialmente no que diz respeito ao deslindamento da inteligência americana que teve início nos anos 1960 – deslinde esse que nos traz à presente crise que está se desenvolvendo em Kiev e Washington. Nos dias atuais, uma guerra estourou no leste europeu entre a “União Soviética oculta” – nome usado por Boris Chykulay – e o povo ucraniano. É uma guerra que atingiu sua massa crítica e suas ramificações vão longe.

Uma piada: O que aconteceu em Kiev já deve ter acontecido em Washington; mas no caso ucraniano eles aprenderam o segredo de uma contrarrevolução bem-sucedida após viverem décadas sob o domínio soviético. O socialismo americano – mesmo que a minha piada (acima) tenha um pouco de exagero –, assim como o socialismo soviético, é, não obstante, um sistema burocrático e corrupto em que os líderes do governo não prestam conta mesmo quando a propriedade privada e as liberdades individuais estão sob risco. Na Rússia, o sistema socialista tem um aspecto adicional: ele fez uso de um velha instituição czarista: a polícia secreta. A KGB da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas usaram dos métodos czaristas de controle de oposição e da rede de agentes secretos – muitos dos quais se passavam até mesmo por inimigos do governo.

Por conta da habilidade da KGB de se infiltrar nos movimentos que faziam oposição a Moscou, todas as revoluções ou mudanças políticas no extinto bloco soviético são enigmáticas. Nunca podemos estar certos sobre quem de fato ganhou até sabermos – após um longo tempo – em quais mãos está o poder; isto é, se a velha elite comunista continua no comando do exército, da polícia, da mídia, do sistema econômico e dos cargos chave no governo. A análise neste caso é simples de se fazer, mas ninguém no ocidente está tentando fazê-la. Nenhuma carreira avança ao fazer tal análise, especialmente nos países do ocidente onde os poderes constituídos ouvem somente aquilo que querem ouvir e descartam o resto. Más notícias não são negociáveis sob o regime do shopping center. As classes endinheiradas querem investir nos países recém-libertos do “extinto” império soviético. O apelo à ganância já os sobrepujou – fim da discussão.

Assim, o império soviético mantém-se intacto ao operar por meio de estruturas ocultas. A oposição controlada pela KGB foi a protagonista da história em 1989 e 1991. Essa sempre foi a história que nunca contaram. Ela continuará sem ser contada até que a União Soviética oculta seja derrubada de uma vez por todas. Eu conversei com os colegas de escola de Vaclav Havel que descreveram-no como o perfeito instrumento do Estado comunista – um falso dissidente e homem de confiança da KGB. Em 1992, um líder da Solidariedade Combatente disse-me que Lech Walesa era um títere de longa data da polícia secreta polonesa. Desde muito antes fora publicado o codinome ao qual a polícia secreta se referia a Walesa: BOLEK. (v. “Entrevista com o historiador Slawomir Cenckiewicz: ‘Prova positiva’ de que Lech Walesa era um espião comunista”).

Aceleremos até o presente: O que tem acontecido na Ucrânia? Quem integra o time moscovita em Kiev? A maioria dos parlamentares, para começar; Yulia Tymoshenko em particular; os comandantes militares e dos serviços de segurança, excetuando todos aqueles que estão trabalhando secretamente no movimento clandestino ucraniano. (Saber que há um poderoso movimento clandestino – ou underground – com seus próprios tentáculos em Moscou não é mero otimismo. É como funciona o mundo. Os ucranianos foram soviéticos e, como tais, eles tiveram a oportunidade de jogar o mesmo jogo que os russos vêm jogando com eles. Isso jamais deve ser esquecido. Pense nas obras de Golitsyn ou nas obras de Viktor Suvorov. Os ucranianos têm experiência, acesso e motivação para jogar – e ganhar – dos russos em seu próprio jogo. Consequentemente, entender o que de fato está acontecendo na Ucrânia é um desafio difícil e delicado que requer cuidadosa análise e conhecimento detalhado.)

O Kremlin tem várias armas, vários agentes e várias fraudes a seu serviço. Um país que outrora fora comunista pode, em si mesmo, parecer uma “selvageria de espelhos”. Os comunistas gostam de confundir o processo político em todos os países. Isso também se aplica à Alemanha em parte por ela já ter sido um “país comunista” (i.e. República Democrática Alemã). Ao ouvirmos que a conservadora Chanceler alemã Angela Merkel está ansiosa para se encontrar com a ex-Primeira Ministra ucraniana Yulia Tymoshenko, que saiu recentemente da prisão, precisamos primeiro considerar o passado de Merkel com o Partido Comunista antes de considerarmos o papel de Tymoshenko como ajudante menor de Moscou. Ambas têm uma relação peculiar com Moscou que vai fundo no passado.

Uma jornalista alemã recentemente escreveu para mim sobre Merkel, dizendo que a inteligência alemã tentou avisar os Democratas Cristãos que Merkel era “uma pessoa perigosa”. Não obstante, os Democratas Cristão não deram ouvidos e hoje a Alemanha é mais dependente do que nunca do gás natural russo. Quanto à situação atual da Ucrânia, com o aparente colapso do governo de Yanukovych, tive a chance de conversar com o ativista ucraniano Boris Chykulay, que explicou a situação nos seguintes termos: “Instintivamente as pessoas sabem que estão lutando contra uma URSS oculta. Você pode ver isso agora em todas as cidades com a queda de tantos monumentos a Lênin.”

Chykulay está propondo uma lei lustral que preveniria que “ex” comunistas mantivessem cargos públicos na Ucrânia. Como explica a Wikipédia, a “lustração é o processo governamental que regula a participação de ex-comunistas – especialmente informantes da polícia secreta comunista – em posições políticas de sucessão ou indicação ou em posições de serviço civil [...] após a queda de vários Estados comunistas europeus...” A lustração poderia ser uma importante ferramenta na restrição do acesso de comunistas ao poder na Ucrânia, para que assim se pavimente um novo começo. Como explicou Chykulay, “Precisamos de uma lei lustral para limitar a influência da KGB... [e de todas as estruturas soviéticas remanescentes]”. Para consertar o que está errado na Ucrânia, disse Chykulay, os ucranianos precisam expurgar a União Soviética oculta que age às escondidas no cenário político ucraniano.

“O problema que enfrentamos agora”, disse Chykulay, “é que Putin simplesmente disse adeus ao mafioso Yanukovych. Agora ele começará a agir com os agentes padrão”. Conforme acrescentou outro ativista, os políticos que agora estão tomando a frente das negociações diretas são ex-líderes do Komsomol que agora estão no parlamento. Esses são os mais comprometidos dos comunistas do velho sistema. Eles não são democratas em qualquer concepção. De acordo com Chykulay, esses “agentes padrão” estão dizendo aos manifestantes de Maidan para irem para suas casas, que a revolução foi vitoriosa. “Eles estão tentando manter o velho sistema, sem qualquer resultado ou mudança. Eles querem dar fim no caso”, explicou. “A Rússia tentará controlar a Ucrânia por meio da sua velha rede; por meio de Yulia Tymoshenko e associados. Disse ela: ‘Queridos ucranianos, não deixarei que o governo os machuque novamente’. Por aí você já vê que eles já descrevem o governo ucraniano como algo separado do povo ucraniano. Eles querem salvaguardar as velhas estruturas soviéticas. Aos ucranianos foi, portanto, dito que eles não seriam atacados”.

Há perigo de a Ucrânia ser alvo de um ataque direto? Os russos poderiam interferir com suas tropas?

“Sim, a Ucrânia ocidental é um alvo em potencial” respondeu Chykulay. “Eles dirão que o povo em Lviv é fascista para depois pintar a Ucrânia como um país de extrema direita”. O Kremlin, com efeito, ameaçou invadir qualquer ex-república soviética onde os direitos das minorias russófonas fossem desrespeitados. “O caso da Georgia em 2008 é um exemplo primordial. O único problema de se levar a cabo tal ataque militar está na confiabilidade das tropas russas e da reação da Europa”.

Evidentemente a guerra é o último recurso. O Kremlin tem vários dispositivos e truques para usar antes que as coisas atinjam tal grau de extremidade. De acordo com Chykulay, “Essa organização [a KGB] sempre teve tudo sob controle. Primeiro matam esse cara, depois o próximo. É assim que eles impedem o progresso da oposição. Depois eles começam a podar a floresta em outra direção. Claramente eles têm as coisas sob controle. Eles se sentem no controle. Contudo, por debaixo dos panos, eles estão perdendo esse controle. A internet os deixa desorientados.”

Há um cauteloso otimismo por parte dos ativistas ucranianos. As tentativas anteriores de liberdade foram frustrantes, é verdade, mas Maidan possui boas táticas e se recusa a ser enganada pelos títeres do Kremlin. Um analista ucraniano assim explicou: “Conforme acontecerem as coisas, o povo não aceitará as manobras dos líderes. Nesta manhã Maidan foi palco de um encontro maciço que tratou de Tymoshenko. Eles chamaram de ‘encontro de ação’, dado que ele foi tratado como algo contra um retorno de Tymoshenko à política. Se ela voltar, disseram, o clã gangster tomará conta e nada mudará. A exigência é que tudo recomece do zero”.

A contrarrevolução anti-comunista na Ucrânia ganha força. Moscou manda seus bonecos de ventríloquo para o moedor de carne. Um é moído após o outro. Quem irá emergir como novo líder? Talvez o jogo da oposição controlada exauriu suas possibilidades na Ucrânia.

O tempo dirá.

 

Tradução: Leonildo Trombela Júnior