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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sobre a Consagração Total à Santíssima Virgem Maria


Perguntaram-me alguns amigos, o que era de fato a consagração total à Santíssima Virgem Maria, e qual seria a melhor forma de torná-la uma concreta vivência. Ocorreu-me num instante, tais palavras. Ei-las:

"A consagração Total à Santíssima Virgem Maria é um cheque em branco e assinado que damos à Nossa Senhora; ela decide o valor a ser posto no cheque!

É um contrato em branco assinado por quem se consagra, onde Ela escreve com suas purissimas mãos, as cláusulas que irão salvar-nos a alma no derradeiro julgamento! 

É um livro com as paginas dos últimos capítulos em branco,  onde deixam os consagrados que Ela escreva o resto das narrativas de sua caminhada rumo à Jesus Cristo.

A Consagração é,  em última análise,  viver radicalmente a Divina Providência em nossas almas, enquanto andamos pelos terrenos pedregosos das estradas rumo ao Céu!"

Salve Maria Santíssima

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Santo Rosário, prenda dileta do Imaculado Coração de Maria



Por Antonio Royo Marín, O.P.


Tradução: Diogo Pitta

A meditação dos principais mistérios da vida de Jesus e seu nascimento constitui como a alma do Rosário, assim como a reza vocal dos“Pai Nossos” e das “Ave Marias”, constituem como seu corpo material. Ambas as coisas são absolutamente necessárias para que exista o Rosário. Quem limitar-se a rezar os Pais nossos e as Ave Marias, sem meditar nos mistérios, faria, sem dúvida, uma excelente oração, mas não rezaria o Rosário. E o que meditasse atentamente os mistérios, mas sem rezar os “Pai Nossos” e as “Ave Marias”, faria uma excelente meditação, mas é claro que tampouco estaria rezando o Rosário. Para que exista o Rosário, é imprescindível, juntar as duas coisas: a récita das orações e a meditação dos mistérios. 


De que maneira pode-se rezar eficazmente o Santo Rosário?


Para obter do Santo Rosário toda sua eficácia impetratória e santificadora, é evidente que não basta rezá-lo de uma maneira mecânica e distraída, como se fosse uma fita-métrica. É preciso rezá-lo digna, atenta e devotamente, como qualquer outra oração vocal.


Em teoria, tem-se que reconhecer que é difícil rezar bem o Rosário, precisamente porque tem que juntar-se a oração vocal com a mental, sob pena de invalidá-lo enquanto Rosário. Porém na prática, é fácil encontrar alguns procedimentos que ajudem-nos na reza correta e piedosa desta grande devoção Mariana.


O Rosário deve rezar-se dignamente. Esta primeira condição exige, primordialmente, que a récita do Rosário se faça de maneira decorosa, como corresponde a Majestade de Deus, a quem principalmente nos dirigimos nesta oração. O melhor procedimento é rezá-lo de joelhos diante de um Sacrário, ou de uma Imagem devota da Santíssima Virgem Maria, mas em geral, pode-se rezá-lo em qualquer outra postura digna, modestamente sentado, passeando pelo campo, etc. seria indecoroso rezá-lo na cama, salvo por razões de enfermidade; ou o interrompendo constantemente para contestar perguntas alheias à reza, ou em lugar público e concorrido, que inevitavelmente dificultará a atenção.


O Santo Rosário deve rezar-se atentamente. A atenção é necessária para evitar a irreverência plenamente voluntária. Como queremos que Deus nos escute, se começamos por não nos escutarmos a nós mesmos? Porém, nem toda distração é culpável. Não temos o controle despótico sobre a nossa imaginação, senão unicamente política, e não podemos evitar que se nos escape sem permissão, como um servo desobediente e indômito, que tal é “a louca da casa” (a imaginação). As distrações involuntárias não invalidam o efeito meritório e impetratório da oração, sob a condição de que se faça o possível para contê-las e evitá-las. Escutemos Santo Tomás, que explica-nos admiravelmente este ponto interessantíssimo ao perguntar-se “se a oração deve ser atenta” :


            “Esta questão afeta principalmente a oração vocal. E para resolvê-la com acerto, tem-se que distinguir em primeiro lugar, o que é maior e o que é absolutamente necessário. É evidente que para obter o fim da oração, é melhor que seja atenta. Porém, se fixamo-nos no que é absolutamente necessário, tem-se que distinguir na oração um tríplice efeito: meritório, impetratório e certo deleite espiritual que a oração produz na alma que ora. Para os efeitos meritório e impetratório, não é necessário que a oração seja atenta de uma maneira constantemente atual ( ou seja, todos e cada um dos momentos), senão que basta e é eficiente a atenção virtual, que é aquela que se pôs ao princípio da oração e perdura ao longo dela, embora sejamos submetidos à distrações involuntárias. Desde já, se faltasse a primeira intenção, a oração não seria meritória nem impetratória. Ao invés, a atenção atual é absolutamente necessária para obter aquele deleite espiritual que leva consigo a oração fervorosa, que é incompatível com a distração, embora seja involuntária. 


Tenha-se em conta, ademais, que na oração vocal pode-se pôr uma tripla atenção. A primeira e mais perfeita refere-se à correta pronúncia das palavras constantes. A segunda, fixa-se no sentido dessas palavras. A terceira, finalmente, põe todo o seu empenho no fim da oração, ou seja, em Deus e na coisa pela qual se ora. Esta última é a mais importante e necessária, e podem tê-la incluso as pessoas de curto alcance intelectual, ou que não entendem o sentido das palavras que pronunciam (por exemplo, por rezar em latim). Esta última atenção pode ser tão intensa, que pode arrebatar a mente à Deus, até o ponto de fazermos perder de vista todas as demais coisas.”


Tendo em conta estes princípios do Doutor Angélico e com o fim de facilitar a atenção na récita do Santo Rosário, e extrair dele sua máxima eficácia santificadora, pode seguir-se o seguinte método, que tem sido ensinado com êxito por muitas pessoas que sofriam distrações na reza do mesmo:


1.       Durante a récita do Pai-Nosso, fixar-se unicamente no sentido maravilhoso de cada uma das palavras, sem pensar em nada do mistério correspondente do Rosário, já que é psicologicamente impossível dar atenção a duas coisas de uma vez.


2.      Durante a récita das três primeiras Ave-Marias, fixar-se exclusivamente no sentido dessas Ave-Marias, saudando à Virgem Santíssima com elas e sem levar em conta o mistério a que pertencem, pela razão já exposta.


3.      Durante a reza das três Ave-Marias seguintes, pensar somente no mistério correspondente que se está rezando, sem pensar em nada sobre as Ave-Marias que se recitam.


4.      Durante as três ou quatro Ave-Marias finais, pensar somente nas conseqüências práticas que se desprendem do mistério correspondente (exemplo: humildade de Maria, seu amor pela Cruz, etc...)


5.      Durante o “Glória”, pensar unicamente em glorificar com Ela (com a santíssima Virgem) a Santíssima Trindade. O término, o Rosário tem de ser rezado devotamente. A devoção consiste em uma prontidão de ânimo para com as coisas tocantes ao serviço de Deus. É impossível que a alma não se sinta plena de devoção se reza tão perfeitamente possível o Rosário.


Aqui, temos de advertir para algo importantíssimo. O fim principal de toda oração vocal ou mental é unir a alma com Deus de maneira mais íntima realizável. Todo o resto, inclusa a impetração das Graças que pedimos, é secundário em relação a esta finalidade suprema. De onde temos de concluir que, se durante a récita do Santo Rosário, ou de qualquer outra oração vocal obrigatória sentir-se a alma plena de um amor de Deus tão intenso, que a reza se torne penosa caso seja um pouco menos que o impossível, haver-se-ia de suspender imediatamente a récita sem escrúpulo algum, para “desejar-se abrasar em silêncio” por aquela chama de amor viva “que dá a Vida Eterna e paga toda a dívida”, como disse São João da Cruz.


A reza do Santo Rosário nas condições as quais acabamos de indicar, constitui um dos maiores e claros sinais de predestinação que podemos alcançar neste mundo, ao reunir a eficácia inefável da oração impetratória, a perseverança final, e a poderosíssima intercessão da Santíssima Virgem Maria, como mediadora universal de todas as Graças. Queira Deus conceder a cada um dos leitores o desejo ardente de um grande devoto da Virgem Santíssima em sua dupla invocação, do Carmelo e do Rosário:


Quando com branco sudário

cobrirem os despojos meus,

salva-me teu escapulário

e tenham meus dedos frios

as contas do teu Rosário!

Trecho original em http://www.statveritas.com.ar

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Rosário, um tesouro - Por Pe. Gabriele Amorth - Exocista de Roma


Queridos irmãos, queridas irmãs, a paz! No mês de outubro, consagrado à piedosa devoção do Santo Rosário, procuramos sempre mais “contemplar Cristo com Maria”. Retomando o discurso sobre o Rosário, nosso pensamento se remete à definição que lhe foi dada por Paulo VI: “Compêndio de todo o Evangelho”. Na realidade, a característica fundamental desta piedosa prática é ser, ao mesmo tempo, oração e meditação dos principais mistérios cristãos.


É por isso que Nossa Senhora em Fátima propõe o Rosário como antídoto ao ateísmo: o homem de hoje tem mais necessidade do que nunca de rezar e de meditar as grandes verdades reveladas. Não é de admirar a insistência dos papas em recomendar esta oração: pensemos, por exemplo (antes da Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, de João Paulo II), nas doze Encíclicas sobre o Rosário de Leão XIII. E não nos admiremos com o fato de que, nas Aparições de Lourdes e de Fátima, tenha sido dado tanto destaque a esta piedosa devoção mariana.

O Rosário, um tesouro a ser redescoberto

A história do Rosário tornou-se conhecida sobretudo depois da celebração do Ano do Rosário (de outubro de 2002 a outubro de 2003). E ficamos conhecendo o acréscimo dos cinco “Mistérios da Luz”, com os quais o Papa Wojtyla quis enriquecer esta piedosa devoção mariana.

Aqui queremos recuperar – em outubro, que é precisamente o mês do Rosário – algumas reflexões que nos parecem particularmente atuais.

O ritmo da vida dos nossos dias quebrou a unidade da família: os familiares passam pouco tempo juntos e, às vezes, mesmo naqueles poucos momentos não se conversa, porque quem rege a casa é a televisão... Mas já Pio XII insistia sobre a retomada do Rosário em família: “Se unidos recitais o Rosário, desfrutareis da paz em vossas famílias, tereis a harmonia doespírito nas vossas casas”. “A família que reza unida permanece unida”, repetia em todas as partes do mundo o americano P. Peyton, o incansável apóstolo do Rosário em família. E João Paulo II nos recordava: “O nosso coração pode abraçar, nestas dezenas do Rosário, os fatos que compõem a vida do indivíduo, da família, da Nação, da Igreja, da humanidade. O Rosário marca o ritmo da vida humana” (RVM, 2).



O Rosário é também a oração da paz, a oração que abraça o mundo inteiro. Um outro grande apóstolo do Rosário dos últimos tempos, o Bispo Fulton Sheen, tinha concebido uma coroa de cinco cores, que ainda está muito em uso: uma dezena de contas verdes, para lembrar a África (conhecida por suas verdes florestas), uma dezena de contas vermelhas para a América (habitada originalmente pelos índios), uma dezena de contas brancas para a Europa (em homenagem à veste branca do Papa), uma dezena de contas azuis para a Oceania (imersa no azul do Pacífico), e uma dezena de contas amarelas para o imenso continente asiático (com referência à tendência de cor da pele de algumas raças de seus habitantes). Assim, ao fim da coroa, abraçou-se o mundo.

O homem tem hoje, mais do que nunca, a necessidade de fazer pausas para o silêncio e reflexão. No mundo de hoje, existe a necessidade do silêncio orante. Se acreditamos no poder da oração, estamos convencidos de que o Rosário é mais forte do que a bomba atômica.

Relembremos tudo quanto foi sugerido no “Ano do Rosário”, particularmente na Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, do Papa João Paulo II: as razões para sermos fiéis a esta piedosa prática mariana permanecem todas plenamente válidas: de fato, ao que parece, ainda mais do que antes: porque hoje há uma necessidade ainda maior de “redescobrir uma oração tão fácil e, ao mesmo tempo, tão rica” (RVM, 43) como é o Santo Rosário.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Virgem Maria no Concílio Vaticano II


Na Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, a Lumen Gentium, há um capítulo inteiro (Capítulo VIII) dedicado à Santíssima Virgem Maria. Estando às portas do Ano da Fé, o Papa Bento XVI realizou um discurso bastante propício para o tempo que vivemos. Tal discurso foi proferido no XXIII Congresso Mariológico Mariano Internacional, onde o Papa faz uma abordagem teológica sobre a figura da Virgem Maria no Concílio Vaticano II. Eis um trecho do discurso;

O Beato João XXIII quis que o Concílio Ecuménico Vaticano II fosse inaugurado precisamente no dia 11 de Outubro, dia em que, no ano 431, o Concílio de Éfeso tinha proclamado Maria «Theotokos», Mãe de Deus (cf. AAS 54, 1962, 67-68). Em tal circunstância, ele começou o seu discurso com palavras significativas e programáticas: «Gaudet Mater Ecclesia quod, singulari Divinae providentiae munere, optatissimus iam dies illuxit, quo, auspice Deipara Virgine, cuius materna dignitas hodie festo ritu recolitur, hic ad Beati Petri sepulchrum Concilium Oecumenicum Vaticanum Secundum sollemniter initium capit» (tradução: «A Mãe Igreja alegra-se porque, por uma dádiva especial da Providência divina, já chegou o dia tão almejado em que, sob os auspícios da Virgem Mãe de Deus, cuja dignidade materna se celebra com alegria hoje, aqui junto do sepulcro de São Pedro, começa solenemente o Concílio Ecuménico Vaticano II»).


Como sabeis, no próximo mês de Outubro, para recordar aquele acontecimento extraordinário, será inaugurado solenemente o Ano de fé, que eu quis proclamar com o Motu proprio Porta fidei no qual, apresentando Maria como modelo exemplar de fé, invoco a sua especial salvaguarda e intercessão para o caminho da Igreja, confiando este tempo de graça a Ela, bem-aventurada porque acreditou. Prezados irmãos e irmãs, também hoje a Igreja se alegra na celebração litúrgica da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria, a Toda Santa, aurora da nossa salvação.

O sentido desta festa mariana é-nos recordado por santo André de Creta, que viveu entre os séculos VII e VIII, numa sua famosa Homilia para a Festa da Natividade de Maria, em que este acontecimento é apresentado como um fragmento precioso do mosaico extraordinário que é o desígnio divino de salvação da humanidade: «O mistério de Deus que se torna homem e a divinização do homem assumido pelo Verbo representam a suma dos bens que Cristo nos concedeu, a revelação do plano divino e a derrota de toda a presunçosa auto-suficiência humana. A vinda de Deus entre os homens, como luz resplandecente e realidade divina clara e visível, é o dom grande e maravilhoso da salvação que nos é dispensado. A celebração hodierna honra a Natividade da Mãe de Deus. Porém, o verdadeiro significado e a finalidade deste acontecimento é a encarnação do Verbo. 

Com efeito, Maria nasce, é amamentada e educada para ser a Mãe do Rei dos séculos, de Deus» (Discurso I: PG 97, 806-807). Este testemunho importante e antigo leva-nos ao cerne da temática sobre a qual meditar e que o Concílio Vaticano II quis ressaltar já no título do capítulo VIII da Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium: «A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja». Trata-se do «nexus mysteriorum», da ligação íntima entre os mistérios da fé cristã, que o Concílio indicou como horizonte para compreender cada um dos elementos e as diferentes afirmações do património da fé católica.

No Concílio, no qual participei come perito quando era um jovem teólogo, tive a oportunidade de ver os vários modos de enfrentar as temáticas acerca da figura e do papel da Bem-Aventurada Virgem Maria na história da salvação. Na segunda sessão do Concílio, um numeroso grupo de Padres pediu que se falasse sobre Nossa Senhora no contexto da Constituição sobre a Igreja, enquanto outro grupo igualmente numeroso defendia a necessidade de um documento específico que salientasse adequadamente a dignidade, os privilégios e o papel singular de Maria na redenção levada a cabo por Cristo. Com a votação de 29 de Outubro de 1963 decidiu-se optar pela primeira proposta, e o esquema da Constituição dogmática sobre a Igreja foi enriquecido com o capítulo sobre a Mãe de Deus, no qual a figura de Maria, relida e reproposta a partir da Palavra de Deus, dos textos da tradição patrística e litúrgica, mas também da ampla reflexão teológica e espiritual, se manifesta em toda a sua beleza e singularidade, estreitamente inserida nos mistérios fundamentais da fé cristã. 

Maria, de quem é salientada antes de tudo a fé, faz parte do mistério de amor e de comunhão da Santíssima Trindade; a sua cooperação para o plano divino da salvação e para a única mediação de Cristo é claramente afirmada e posta no justo relevo, fazendo dela um modelo e um ponto de referência para a Igreja, que n’Ela se reconhece a si mesma, a própria vocação e a sua missão. Por fim a piedade popular, desde sempre orientada para Maria, é alimentada pelas referências bíblicas e patrísticas. Sem dúvida, o texto conciliar não tratou a fundo todas as problemáticas relativas à figura da Mãe de Deus, mas constitui o horizonte hermenêutico essencial para cada ulterior tipo de reflexão, quer de carácter teológico, quer de índole mais estreitamente espiritual e pastoral. 

Além disso, representa um precioso ponto de equilíbrio, sempre necessário, entre a racionalidade teológica e a afectividade dos crentes. A figura singular da Mãe de Deus deve ser compreendida e aprofundada a partir de perspectivas diferentes e complementares: enquanto permanece sempre válida e necessária a via veritatis, não podemos deixar de percorrer também a via pulchritudinis e a via amoris, para descobrir e contemplar ainda mais profundamente a fé cristalina e sólida de Maria, o seu amor a Deus e a sua esperança inabalável. Por isso, na Exortação Apostólica Verbum Domini, dirigi um convite a continuar na linha ditada pelo Concílio (cf. n. 27), convite que dirijo cordialmente também a vós, caros amigos e estudiosos.

 Oferecei a vossa competente contribuição de reflexão e de proposta pastoral, para fazer com que o iminente Ano da fé possa representar para todos os crentes em Cristo um verdadeiro momento de graça, no qual a fé de Maria nos preceda e nos acompanhe como farol luminoso e como modelo de plenitude e maturidade cristã, para o qual olhar com confiança e do qual haurir entusiasmo e júbilo para viver sempre com maior empenhamento e coerência a nossa vocação de filhos de Deus, irmãos em Cristo e membros vivos do seu Corpo, que é a Igreja.



Pax Christi

Diogo Pitta

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Louvor de Maria, Mãe de Deus.


Contemplo esta assembléia de homens santos, alegres e exultantes que, convidados pela santa sempre Virgem Maria e Mãe de Deus, prontamente acorreram para cá. Embora oprimido por uma grande tristeza, a vista dos Santos Padres aqui reunidos encheu-me de júbilo. Neste momento, vemos realizar-se entre nós aquelas doces palavras do salmista Davi: “ Oh! Como é bom, como é agradável os irmãos morarem juntos!” (Sl 132,1).

Salve ó mística e Santa Trindade, que reunistes a todos nós nesta Igreja de Santa Maria, Mãe de Deus. Salve ó Maria, Mãe de Deus, venerável tesouro do mundo inteiro, lâmpada inextinguível, coroa da virgindade, cetro da verdadeira doutrina, templo indestrutível, morada daquele que lugar algum pode conter, virgem e mãe, por meio de quem é proclamado bendito dos santos Evangelhos “o que vem em nome do Senhor “ (Mt 21,9).

Salve, ó Maria, tu que trouxeste em teu sagrado seio virginal o Imenso e Incompreensível; por ti, é glorificada e adorada a Santíssima Trindade; por ti, se festeja e é adorada no universo a Cruz Preciosa; por ti. Exultam os céus; por ti, se alegram os anjos e arcanjos; por ti, são postos em fuga os demônios; por ti, cai do céu o diabo tentador; por ti é elevada ao céu a criatura decaída; por ti, todo o gênero humano, sujeito à insensatez do  dos ídolos, chaga ao conhecimento da verdade; por ti, o Santo Batismo purifica os que crêem; por ti, recebemos o óleo da alegria; por ti, são fundadas as igrejas em toda a terra; por ti as nações são conduzidas à conversão.

E que mais direi? Por Maria, o Filho Unigênito de Deus veio “iluminar os que estão nas trevas, na sombra da morte” (Lc 1,79); por ela, os profetas anunciaram as coisas futuras; por ela, os apóstolos proclamaram aos povos a Salvação; por ela, os mortos ressuscitam; por ela, reinam os reis em nome da Santíssima Trindade.

Quem, dentre os homens, é capaz de celebrar dignamente a Maria, merecedora de todo Louvor? Ela é mãe e Virgem. Que coisa admirável! Este milagre deixa-me extasiado. Quem jamais ouviu dizer que o construtor impedido de habitar no templo que Ele próprio construiu? Quem se humilhou tanto a ponto de escolher uma escrava para ser sua própria mãe?

Eis que tudo exulta de alegria! Reverenciemos e adoremos a Divina Unidade, com santo temor veneremos a indivisível Trindade, ao celebrar com louvores a sempre Virgem Maria! Ela é o templo Santo de Deus, que é seu Filho e esposo Imaculado. A Ele a Glória pelos séculos dos séculos. Amém.

São Cirilo de Alexandria – Século V – Homilia pronunciada no Concílio de Éfeso

Pax |Christi

Diogo Pitta

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A Realeza de Maria nos textos da Tradição - Papa Pio XII


Trecho da Carta Encíclica do Papa Pio XII, de 11 de outubro do ano de 1954, sobre a Realeza de Maria e a Instituição de sua Festa.

8. Com razão acreditou sempre o povo fiel, já nos séculos passados, que a mulher, de quem nasceu o Filho do Altíssimo - o qual "reinará eternamente na casa de Jacó"(5), (será) "Príncipe da Paz"(6) , "Rei dos Reis e Senhor dos senhores"(7)-, recebeu mais que todas as outras criaturas singulares privilégios de graça. E considerando que há estreita relação entre uma mãe e o seu filho, sem dificuldade reconheceu na Mãe de Deus a dignidade real sobre todas as coisas.

9. Assim, baseando-se nas palavras do arcanjo Gabriel, que predisse o reino eterno do Filho de Maria,(8) e nas de Isabel, que se inclinou diante dela e a saudou como "Mãe do meu Senhor",(9) compreende-se que já os antigos escritores eclesiásticos chamassem a Maria "mãe do Rei" e "Mãe do Senhor", dando claramente a entender que da realeza do Filho derivara para a Mãe certa elevação e preeminência.

10. Santo Efrém, com grande inspiração poética, põe estas palavras na boca de Maria: "Erga-me o firmamento nos seus braços, porque eu estou mais honrada do que ele. O céu não foi tua mãe, e fizeste dele teu trono. Ora, quanto mais se deve honrar e venerar a mãe do Rei, do que o seu trono!"(10) Em outro passo, assim invoca a Maria santíssima: "...Virgem augusta e protetora, rainha e senhora, protege-me à tua sombra, guarda-me, para que Satanás, que semeia ruínas, não me ataque, nem triunfe de mim o iníquo adversário".(11)

11. A Maria chama s. Gregório Nazianzeno "Mãe do Rei de todo o universo", "Mãe virgem, [que] deu à luz o Rei do todo o mundo".(12) Prudêncio diz que a Mãe se maravilha "de ter gerado a Deus não só como homem mas também como sumo rei".(13)

12. E afirmam claramente a dignidade real de Maria aqueles que a chamam "senhora", "dominadora" e "rainha".

13. Já numa homilia atribuída a Orígenes, Maria é chamada por Isabel não só "Mãe do meu Senhor" mas também "Tu, minha Senhora".(14)

14. O mesmo conceito se pode deduzir dum texto de s. Jerônimo, que expõe o próprio parecer acerca das várias interpretações do nome de Maria: "Saiba-se que Maria, na língua siríaca, significa Senhora".(15) Igualmente e com mais decisão, se exprime depois s. Pedro Crisólogo: "O nome hebraico Maria traduz-se por "Domina" em latim: "portanto o anjo chama-lhe Senhora para livrar do temor de escrava a mãe do Dominador, a qual nasce e se chama Senhora pelo poder do Filho".(16)

15. Santo Epifânio, bispo de Constantinopla, escreve ao papa Hormisdas pedindo a conservação da unidade da Igreja "mediante a graça da Trindade una e santa e por intercessão de nossa Senhora, a santa e gloriosa virgem Maria, Mãe de Deus".(17)

16. Um autor do mesmo tempo dirige-se a Maria santíssima, sentada à direita de Deus, invocando-a solenemente como "Senhora dos mortais, santíssima Mãe de Deus".(18)
17. Santo André Cretense atribui muitas vezes a dignidade real à virgem Maria; escreve, por exemplo: "Leva [Jesus Cristo] neste dia da morada terrestre [para o céu], como rainha do gênero humano, a sua Mãe sempre virgem, em cujo seio, permanecendo Deus, tomou a carne humana".(19) E noutro lugar: "Rainha de todo o gênero humano, porque, fiel à significação do seu nome, se encontra acima de tudo quanto não é Deus".(20)

18. Do mesmo modo se dirige s. Germano à humildade da Virgem: "Senta-te, ó Senhora; sendo tu Rainha e mais eminente que todos os reis, pertence-te estar sentada no lugar mais nobre"(21); e chama-lhe: "Senhora de todos aqueles que habitam a terra".(22)

19. São João Damasceno proclama-a "rainha, protetora e senhora"(23) e também: "senhora de todas as criaturas"(24); e um antigo escritor da Igreja ocidental chama-lhe: "ditosa rainha", "rainha eterna junto do Filho Rei", e diz que ela tem a "nívea cabeça ornada com um diadema de ouro".(25)

20. Finalmente, s. Ildefonso de Toledo resume-lhe quase todos os títulos de honra nesta saudação: "Ó minha senhora, minha dominadora: tu dominas em mim, ó mãe do meu Senhor... Senhora entre as escravas, rainha entre as irmãs".(26)

21. Recolhendo a lição desses e outros inumeráveis testemunhos antigos, chamaram os teólogos a santíssima Virgem, rainha de todas as coisas criadas, rainha do mundo e senhora do universo.

22. Por sua vez, os sumos pastores da Igreja julgavam obrigação sua aprovar e promover a devoção à celeste Mãe e Rainha com exortação e louvores. Pondo de parte os documentos dos papas recentes, recordamos que já no século VII o nosso predecessor s. Martinho I chamou a Maria "gloriosa Senhora nossa, sempre virgem";(27) s. Agatão, na carta sinodal enviada aos padres do sexto concílio ecumênico, chamou-a "Senhora nossa, verdadeiramente e com propriedade Mãe de Deus";(28) e no século VIII, Gregório II, em carta ao patriarca s. Germano, que foi lida entre as aclamações dos padres do sétimo concílio ecumênico, proclamava Maria "Senhora de todos e verdadeira Mãe de Deus" e "Senhora de todos os cristãos".(29)

23. Apraz-nos recordar também que o nosso predecessor de imortal memória Sixto IV, querendo favorecer a doutrina da imaculada conceição da santíssima Virgem, começa a carta apostólica Cum praeexcelsa (30) chamando precisamente a Maria "rainha sempre vigilante, a interceder junto ao Rei, que ela gerou". Do mesmo modo Bento XIV, na carta apostólica Gloriosae Dominae (31), chama a Maria "rainha do céu e da terra", afirmando que o sumo Rei lhe contou, em certo modo, o seu próprio império. 

24. Por isso, s. Afonso de Ligório, tendo presente todos os testemunhos dos séculos precedentes, pôde escrever com a maior devoção: "Porque a virgem Maria foi elevada até ser Mãe do Rei dos reis, com justa razão a distingue a Igreja com o título de Rainha".(32)

(5) Lc 1,32.
(6) Is 9,6.
(7) Ap 19,16.
(8) Cf. Lc 1,32-33.
(9) Lc 1,43.
(10) S. Ephraem. Hymni de B. Maria, ed. Th. J. Lamy, t. II, Mechiniae,1886 Hymn. XIX p. 624.
(11) Idem, Oratio and Ss.mam Dei Matrem; Opera omnia, Ed. Assemani, t. III (graece), Romae,1747, p. 546.
(12) S. Gregorio Naz., Poemata dogmatica, XVIII, v. 58: P G. XXXVII, 485.
(13) Prudêncio, Dittochoeum, XVII; PL 60,102A.
(14) Hom. ins. Lucam, hom. VII; ed. Rauer, Origenes Werke, t. IX, p. 48 (ex catem Macarii Chrysocephali). Cf. PG 13,1902 D.
(15) S. Jeronimo, Liber de nominibus hebraeis: PL 23, 886.
(16) S. Pedro Chrisólogo, Sermo 142, De Annuntiatlone B.M.V.: PL 52, 579 C; cf. também 582B; 584A: "Regina totius exstitit castitatis".
(17) Relatio Epiphanii Ep. Constantin.: PL 63, 498D.
(18) Encomium in Dormitionem Ss.mae Deiparae (inter opera s. Modesti): PG 86, 3306B.
(19) s. Andreas Cretensis, Homilia II  in Dormitionem Ss.mae Deiparae: PG 97, 1079B.
(20) Id., Homilla III  in Dormitionem Ss.mae Deiparae: I PG 98, 303A.
(21) S. Germano, In Praesentationem Ss.mae Deiparae, I: PG 98 303A.
(22) Id., In Praesentationem Ss.mae Deiparae, II: PG 98, 315C.
(23) S. João Damasceno, Homilia I in Dormitionem B.M.V: PG 96, 719A.
(24) Id., De fide orthodoxa, I, IV, c.14: PG 44,1158B.
(25) De laudibus Mariae (inter opera Venantii Fortunati): PL 88 282B e 283A. 
(26) Ildefonso Toledano, De virginitate perpetua B.M.V.: PL 96, 58AD.
(27) S. Martinho I, Epist. XIV PL 87,199-200A.
(28) S. Agatão: PL 87,1221A.
(29) Hardouin, Acta Conciliorum, IV, 234 e 238: PL LXXXIX89 508B.
(30) Xisto IV, Bulla Cum praeexcelsa, de 28 de Fevereiro de 1476.
(31) Bento XIV, Bulla Gloriosae Dominae, de 27 de setembro de 1748.
(32) S. Afonso, Le glorie di Maria, p. I, c. I, § 1.


Extraído de http://www.vatican.va

PAX CHRISTI

Diogo Pitta