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sábado, 11 de julho de 2015

O Santo Padre, o Comuno-indio-cocaleiro e o presente maldito: a Prudência do Papa contra a astúcia de Satanás!

Percorreram o mundo das redes sociais, as famigeradas imagens nas quais o Santo Padre, Sua ( e minha..rs..) Santidade, Papa Francisco, é presenteado com um tosco, bizarro e afrontoso presente: Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado sob a Foice e o Martelo, símbolo do mortífero comunismo.

Mal as fotos caíram na rede, logo pulularam centenas de milhares de “vaticanólogos”, “papólogos” e tantos “ólogos” quantos se possam pensar, alcunhando o Santo Padre de Comunista, Adulador de genocidas, dentre outros epípetos e alcunhas estapafúrdias. Fico intrigado com a capacidade que as pessoas possuem de emitir pareceres definitivos sobre temas delicados, sem a devida meditação, oração e discernimento.

Deixa-me igualmente intrigado, a quantidade de “Prefeitos da Congregação para a Doutrina de Fé”, que ex-nihilo surgem, emitindo as mais veementes sentenças sobre – vejam que loucura! – o Sumo Pontífice!

Obviamente que este que vos fala também encontra-se entre os que precisam meditar, orar e clamar ao Espírito Santo o devido discernimento das coisas, mas me ocorrem algumas reflexões as quais gostaria de humildemente partilhar.

O que esperavam os “ólogos” de serviço nos plantões dos tribunais das redes sociais que fizesse o santo Padre? Que cuspisse, quebrasse ou rejeitasse o presente?

Ora amigos, sabemos que o comuno-maluco-índio-cocaleiro-presidente da Bolívia, Evo Morales, há muito quer a Igreja banida das terras bolivianas para levar a diante seu projeto Socialista, seguindo à risca as instruções de Karl Marx. Ora, o que aconteceria com os católicos da Bolívia, caso o Papa, no fechar das cortinas de sua visita à Bolívia, quebrasse, cuspisse, ou rejeitasse diante das câmeras e do mundo, o maldito presente?

Na minha concepção - e aqui deixo claro que posso estar equivocado, porém, parece-me o mais acertado – o que o índio-comuno-maluco pretendia era criar um incidente diplomático, para ter fundamentos para cortar relações com a Santa Sé, e acirrar a perseguição aos católicos bolivianos. Logo, neste caso, creio que o Santo Padre foi prudente.

Se refletirmos com carinho, o mesmo aconteceu com Pio XII, porém em outras circunstâncias. Alguns acusam Pio XII de ter silenciado diante da barbárie Nazista sobre os Judeus. Porém, estudos minuciosos, expostos nos livros de Gordon Thomas e de Andreas Tornieri sobre o “Papa dos Judeus” (ou “Os Judeus do Papa”, como o faz Thomas), mostram que Pio XII não rechaçou Hitler publicamente, como certamente seu coração o impulsionava, devido ao receio que se acirrasse ainda mais o derramamento de sangue de Católicos e Judeus. Porém, os livros relatam que Pio XII promoveu a maior ação de acolhimento de Judeus perseguidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Ora, pergunto-me novamente: o que aconteceria com os católicos da Bolívia, caso o Santo Padre reprovasse publicamente o maldito presente?

Outrora, também Pio XI teve que ceder a acordos com Mussolini, o Tratado do Latrão, em nome da diplomacia. Parece-me que esquecem os “ólogos” de antenas ligadíssimas, que o Vaticano além de sede da Igreja de Cristo, é também um estado soberano com representações diplomáticas em quase todos os países do mundo, e que sua relação com esses países, influencia diretamente sobre a vida dos católicos daquele país. De maneira que administrar a Igreja Universal não é o mesmo que administrar uma paróquia provinciana.

Além do mais, há algo nesta história que fala mais do que palavras... isto:

E isto:


 E isto:


Tanto no vídeo, quanto nas fotos, o Papa fica visivelmente perplexo!


Como muito acertadamente expõe o blogueiro Jorge Ferraz, no seublog Deus lo Vult! :

 “O olhar de desprezo de Sua Santidade diante da paspalhice do boliviano cocaleiro é a mais eloquente declaração anticomunista que o Papa Francisco poderia dar. E, ao contrário do que acontece com entrevistas, diante de cara feia não dá pra tergiversar, pra distorcer, pra suscitar conflito interpretativo nem nada do tipo.

O semblante sisudo é inequívoco, universalmente compreensível, insofismável. O sorriso aguado posterior, protocolar, não elide a força do símbolo desta cara de desgosto. Aqui está a imagem que vale mais do que mil palavras. Aqui está o tratamento de asco e repulsa que o comunismo merece. Às claras, sem ruído, sem margem para má interpretação.”

E continua o Blogueiro:

“Porque, como muitos argutamente perceberam, sob uma determinada ótica a escultura é até apropriada: de fato, há mais de século a foice e o martelo vêm pregando Cristo na Cruz.”

Obviamente a citação acima representa uma troça com o ocorrido, mas que fala da histórica saga da Foice e do Martelo tentando destruir o sentido da Cruz.
Na verdade, creio que a guerra é contra a Cruz de Cristo. Sempre foi e sempre será!

Quanto a mim, prefiro - ao invés de murmurar e lançar anátemas contra o Papa - rezar pelo seu reinado e confiar no FATO de que a Bem-Aventurada Sempre Virgem Maria, (Aquela a qual sob os pés o Santo Padre depositou o "ícone de lúcifer" com o qual foi presenteado) SEMPRE cuida com exímia destreza materna, do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. 

Ela, a esmagadora das heresias tem experiência em esmagar serpentes: o Papa não poderia ter deixado o tal objeto em lugar melhor!

 Viva o Papa!

Salve Maria Santíssima.


terça-feira, 23 de junho de 2015

7 perguntas ao Santo Padre.

O Santo Padre, Papa Francisco, lançou nesta última semana, a sua EncíclicaLaudato Si, sobre a Ecologia. Antes de quaisquer considerações sobre a referida encíclica, desejo declarar meu amor ao Sucessor de Pedro e dizer que por ele, daria de bom grado minha vida.

Aqui, antes de considerações, que não me julgo em estatura intelectual, tampouco espiritual, para tecer quaisquer tipos de tentativa de refutação, limito-me somente a perguntar, mais na ânsia de tentar entender as motivações do Santo Padre e o que ele realmente pretende para a Igreja, do que no desejo atávico de criar querelas teológicas, querelas estas que não tenho cacife para bancar.

Pergunto-me:

Santo Padre, com Cristãos – católicos, protestantes, coptas – sendo decapitados, incendiados, explodidos, esquartejados, fuzilados e apedrejados até a morte no Oriente Médio, sob o terror islâmico, porquê ganhamos uma Encíclica sobre Ecologia?

Santo Padre, nós temos contemplado atônitos o reviver dos regimes totalitários, como a Coréia do Norte, Venezuela, Cuba e Rússia, e diante disso, lhe pergunto: por que fomos agraciados com uma Encíclica sobre Eologia?

Santo Padre, Com a moralidade no mundo atingindo níveis subterrâneos, por quê brindou-nos com uma Encíclica sobre Ecologia?

Santo Padre, temos sido entrincheirados pelas hordas dos que estão sob a égide da cultura de morte, a saber, casamento gay, aborto, ideologia de Gênero e afins... porquê optou como prioridade, por uma Encíclica cujo o tema é Ecologia?

Santo Padre, com a total descristianização da Europa, a ponto da França, aquela que outrora era tida como a “Nova Atenas”, por ser centro mundial do pensamento Cristão, ser tomada por uma avalanche islâmica e ter suas igrejas e catedrais esvaziadas, por que cargas d’água presenteia-nos com uma Encíclica sobre Ecologia?

Ora Santidade, sabendo que a Nova Ordem Mundial utiliza-se do estratagema da psicose ambientalista, porquê de uma Encíclica sobre Ecologia?

Santidade, porque dar-se o trabalho, exaustivo certamente, de redigir um documento, cujo teor aproxima-se perigosamente do expresso pelos teólogos propugnadores da diversas vezes condenada “Teologia da libertação”?

Santidade, só queria entendê-lo.

domingo, 24 de maio de 2015

Machado de Assis: O maior escritor brasileiro

Existem forças das quais é quase que impossível, após um primeiro e descompromissado contato, desvencilhar-se, sendo por vezes salutar deixar-se vencer pelas investidas que tais forças exercem sobre as portas da alma. Obviamente, refiro-me a forças que auxiliam no ato da elevação da alma à contemplação do Belo, e à busca assintótica pela Verdade. Machado de Assis é uma dessas forças. 
Tenho me entregado ultimamente, não com a devoção da qual o "Bruxo do Cosme Velho" é insigne merecedor, à deleitosa leitura das obras de Machado de Assis, e confesso que estou absolutamente apaixonado. Machado encarna a ortodoxia da língua portuguesa e não sem uma hiperbólica justiça, recebe a alcunha de "O melhor escritor brasileiro"!


Compartilho este vídeo, um trecho do curso " A Lingua Absolvida", do Instituto Angelicum, onde o Professor e Filólogo Sérgio Pachá, e o Filósofo Sidney Silveira, ambos conhecedores de Machado de Assis, brindam-nos como uma breve e descontraída conversa sobre tão brilhante escritor.


domingo, 3 de maio de 2015

Padre Garrigou Lagrange: O Rosário Escola de contemplação,

Traduzido por Diogo Pitta
Trecho da obra "La Madre del Salvador y nuestra vida interior" de Réginald Garrigou Lagrange, O.P.


Entre as formas habituais de Devoção Mariana, como o Angelus, o ofício da Santíssima Virgem e o Rosário, só falaremos especialmente desta última, pois nos conduz e dispõe à contemplação dos grandes mistérios da Salvação.

É, depois do Santo Sacrifício da Missa, uma das mais belas e eficazes orações, com a condição de entendê-la bem e viver verdadeiramente dela.

Acontece frequentemente que o terço, uma das partes do Rosário completo, tem se convertido numa oração mecânica, durante a qual o espírito é vítima das distrações, ao não ocupar-se das coisas divinas; oração, no mais das vezes, precipitada e sem espírito, pela qual se pedem os bens materiais sem nenhuma relação com os espirituais, com a santificação e com a salvação.

Então, ao ouvir recitar assim de uma maneira demasiado mecânica e negligente, pergunta-se: O que resta, desta oração, feita desta maneira, dos ensinamentos contidos nas grandes e numerosas encíclicas de Leão XIII sobre o Rosário, encíclicas  estas que recordava Pio XI numa de suas ultimas letras apostólicas pouco antes de sua morte? Pode-se fazer, desde já, uma boa oração, pensando confusamente na bondade de Deus e na Graça que se pede, mas para ao que vulgarmente chamamos de Rosário, sua alma e sua vida tem-se que recordar que não é mais uma das três partes do Rosário, e que deve ir acompanhado da meditação nos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, que nos recordam toda a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a de Sua Santíssima Mãe e a subida de ambos aos Céus.

Os três grandes mistérios da salvação

Os quinze mistérios do Rosário, divididos em três grupos não são outra coisa que os diversos aspectos dos três grandes mistérios da Salvação: o da Encarnação, o da Redenção e o da Vida Eterna.

O Mistério da Encarnação recorda-nos os gozos da Anunciação, da visitação, da Natividade do Senhor, sua apresentação no templo, e seu encontro no meio dos doutores na sinagoga.

O mistério da Redenção está representado pelos diversos momentos da Paixão de Jesus: a agonia no Horto do Getsémani, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho ao Calvário com a Cruz às costas, e a crucifixão.

O mistério da Vida Eterna nos é recordado pela Ressurreição, a ascenção, Pentecostes, a Assunção de Maria Santíssima e sua coroação no Céu.

Todo o Credo passa, pois, diante de nossos olhos, não de uma maneira abstrata, com fórmulas dogmáticas, mas de uma maneira concreta na vida de Cristo, que desceu até nós, e subiu à seu Pai para conduzir-nos a Ele. É todo o dogma cristão, em toda a sua profundidade e esplendor, para que possamos desta maneira e todos os dias, compreendê-lo, saboreá-lo e alimentarmos nossa alma com ele.

Por isso, o Rosário é uma escola de contemplação, pois nos eleva pouco a pouco acima da oração vocal e da meditação fundamentada em discursos. Os teólogos antigos compararam esta ascensão da contemplação ao movimento em espiral. Este movimento em espiral é também como um caminho que serpenteia uma alta montanha para fazer-se uma subida mais fácil. Os mistérios gozosos da infância do salvador conduzem à sua Paixão, e sua Paixão ao Céu. É pois, uma oração muito elevada, se a entende bem, pois põe ante nossos olhos todo o dogma de maneira acessível a todos.

É também muito prática, porque nos recorda toda a moral e a espiritualidade cristã, contempladas desde o alto, por meio da imitação de Jesus Redentor e de Maria Medianeira, que são nossos grandes modelos.

Estes mistérios devem reproduzir-se em nossa vida na medida exigida para cada um de nós pela Divina Providência. Cada um deles nos recorda uma virtude, sobretudo a humildade, a confiança, a paciência e a caridade. Pode-se até dizer que existem três momentos em nossa viajem até Deus: contemplamos primeiro o fim último, daí nasce o desejo da Salvação e a alegria que o acompanha; isto é o que contemplamos nos mistérios gloriosos, a Boa nova da Encarnação do filho de Deus que nos abra o caminho da Salvação.

Devemos logo procurar meios, muitas vezes penosos e dolorosos, para a libertação do pecado e a conquista do Céu. Insistem sobre esse ponto os mistérios dolorosos.

Descansamos, finalmente, no ultimo fim a conquistar, na Vida eterna, cujo prelúdio deve estar presente. Contemplamos isto antecipadamente nos mistérios Gloriosos.

O Rosário é muito prático, pois nos toma do meio de nossas alegrias demasiado humanas e às vezes perigosas, para fazer-nos pensar naquelas outras muito mais elevadas da Vinda do Salvador. Nos toma também do meio de nossas dores irracionais e com frequência exaustivas e quase sempre mal suportados, para recoradarmos que Jesus sofreu muito mais que nós e para aprender a segui-lo levando a Cruz que a providência Divina elegeu para purificar-nos. O Rosário, finalmente, nos torna em meio às nossas esperanças demasiado terrenas, para fazer-nos pensar no verdadeiro objeto da esperança cristã, na Vida Eterna e na Graças necessárias para chegar a ela, por meio do cumprimento dos grandes do amor a Deus e ao próximo.

LAGRANGE, Reginald Garrigou, "La Madre del Salvador y nuestra vida interior", p. 260-263

sábado, 2 de maio de 2015

"Voltei aos braços da Igreja"

Publicado no site padrepauloricardo.org

 Conheça o testemunho do jovem Paulo que, com um coração inquieto, procurou a verdade e voltou para os braços da Igreja. "Deus está comigo. E descobri que, nesse tempo inteiro de lutas, idas e vindas, Maria também estava."

"Olá, Equipe Christo Nihil Praeponere.

Apesar das muitas ocupações do Padre Paulo Ricardo, estou escrevendo esse testemunho na esperança de que chegue até ele, como mais um exemplo de conversão ao catolicismo. Minha história tem muitas reviravoltas e é uma prova da misericórdia de Deus e do amor de Maria.

Não cresci num lar religioso. Embora meus pais fossem católicos (não praticantes, infelizmente), nunca fui incentivado a conhecer mais sobre Deus e a Igreja. Ao longo da vida aprendi valores morais cristãos, mas não os identificava assim. Eram apenas "o certo e o errado". Aos 10 anos fiz a primeira Comunhão. Não me interessava. As formações eram "chatas, sem ânimo". Aquele falatório de "coisas que eu não tinha interesse em saber". Infelizmente, passei por essa fase sem compreender a importância do que vivia. Apesar do pouco ensino e incentivo religioso, os primeiros meses após a primeira comunhão foram de grande religiosidade. Em minha mesa de estudo havia sempre uma Bíblia infantil aberta no meio, em uma imagem linda, de uma paisagem com plantações e árvores, além de um lindo céu azul. No meio, um terço, que eu não sabia rezar, mas achava bonito.

Ainda assim, não era católico de fato. "Obrigação de ir à missa? Coisa de velho! O que importa é amar a Jesus"... Aos 13 anos, início da puberdade, um milhão de ideias entrava em minha mente. Estava no nono ano (antiga oitava série), e embora boa parte dos meus amigos não se interessasse por religião, filosofia etc, eu tinha uma aproximação pelas ciências humanas. Cresci lendo e ouvindo. Aos 13, comecei a ouvir demais. As influências de Antonio Gramsci faziam pressão em minha mente e eu, inocente, achava que estava adquirindo cultura. Lia sobre a Bíblia apoiar a escravidão, sobre Deus permitir tragédias, guerras, morte, desastres e fome, sobre a perseguição aos homossexuais, negros e mulheres na Idade Média e sobre as guerras travadas por motivos religiosos. "Mas, Deus não é amor? Como pode deixar que isso ocorra?". Relativismo puro, como veneno. Embora detestasse o socialismo/comunismo, detestava ainda mais as religiões. Igreja era coisa de alienado, escravo de padre e pastor. Deus ainda fazia sentido, religião não. Aos poucos, nem o Senhor estaria a salvo da metralhadora do meu neo-ateísmo.

Ateu aos 14. Compartilhava posts de páginas como se destruir a fé dos outros fosse o motivo de minha existência. Mal sabia eu, mas Deus estava me observando, sabendo que tudo ia mudar. Comecei a andar com más companhias. Desafiava meus pais. Num momento delicado, um convite me foi feito. Um grande amigo me convidou para um retiro de carnaval, de sua igreja. Era o ano de 2013, e pouca escolha eu tive. Fui meio desanimado, meio curioso. Evangélicos eram como alienígenas para mim. Não os conhecia e nem tinha curiosidade em conhecer. Quando cheguei na granja, um ambiente diferente do que eu imaginava. Nenhuma mulher com cabelo até os joelhos. Meninas de shorts e blusa. Rapazes de bermuda e camisa. Conversando, rindo, ouvindo música. Parecia que não eram religiosos. Divertiam-se. Estranho... 

Passaram os dias e fui sentindo. Não era calor nem frio. Não era medo nem coragem. Não se pode descrever. Foi único e senti. Fiz amigos, descobri que Deus existe e que é misericordioso. A igreja evangélica me mostrou Seu amor e perdão. Mudei, enfim. Converti-me. Havia um clima de esperança no ar. E comecei minha jornada rumo à Igreja Católica.

O interesse por teologia crescia imensamente. John Stott, Calvino, Lutero, Armínio, Paul Washer, John Piper, Dietrich Bonhoeffer. Era um mundo a ser descoberto. Com meu interesse e gosto pela leitura, fui em frente. Além da Bíblia, "Ouça o Espírito, Ouça o Mundo" era meu livro preferido. Eu era pentecostal clássico e os livros aos poucos me levaram para outro caminho. Através de amigos, leitura, debates em redes sociais e conversas, me aproximei do protestantismo reformado. Tornei-me calvinista, mas ainda pentecostal. Desejava muito passar a congregar em uma Igreja Presbiteriana, porém já havia arrastado minha mãe para o ambiente pentecostal e ela já se sentia em casa lá. As leituras, felizmente mudaram. De Stott para Lutero. De Lutero para Calvino. E então, de Calvino para Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. 

Embora adorasse os dois pensadores, era anticatólico. Aprendi a ser contra o uso de imagens. Era contra a Bíblia. Purgatório? Uma heresia! Celibato? Alienação da Igreja! Maria? Uma mulher normal. Especial, mas normal. Meu pai, após a minha conversão, e posteriormente de minha mãe, passou a se interessar novamente pelo catolicismo. Virou mariano, como nunca havia sido. Brigas e debates em casa eram constantes. Eu queria que ele entendesse que só Jesus salva e que a Igreja fundada por Cristo era o cristianismo, não a Católica. Curtia páginas anticatólicas e tinha várias imagens deles em meu celular. O ódio, porém, teve o efeito contrário. Passei a me interessar por estudar o catolicismo. Queria entender que loucura era essa de se ajoelhar perante estátuas, rezar por quem já morreu e repetir orações. A tradição era linda, mas falha. Voltei aos livros, e as escamas de meus olhos caíram. Dessa vez, já conhecia a Deus. Foi a hora de conhecer a Igreja.

Sabia que havia um padre muito bem conceituado, que destruía Gramsci, Marx e o PT. Mas era padre. "Que pena, nem todos são perfeitos." Passei a ver seus vídeos sobre santos, Maria, intercessão, purgatório e suas críticas aos protestantes. Fui me incomodando. A verdade me incomodava. E quanto mais eu lia, ouvia e debatia, mais ficava incomodado. Decidi ir para a batalha. Pedi postagens, explicações e testemunhos em uma página cristã no Facebook. Criei amigos lá. Aos poucos, dúvidas iam sendo tiradas, e descobri que, de catolicismo, não sabia nada. Passei a querer ser católico. O amor de Nossa Senhora era tão lindo, mas me relutava a me entregar em seus braços. Orei, pedi iluminação. Estava decidido. No começo desse ano, fui a um retiro de carnaval. Aproveitei para conversar com amigos sobre. Felizmente, tive apoio e sorrisos como resposta a minha escolha. Antes do acampamento, porém, fui à Paróquia aqui do bairro, conversar com o Padre e me confessar. Conversamos, mas ainda não me confessei, afinal iria para o retiro evangélico. Era o grande desafio. Na volta, estava com mais certeza ainda. Relutei, devido a amizades que cultivei e que amo, mas Cristo me chamava. Era isso ou enlouquecer. 

Fui me confessar e, enfim, me tornei Católico Apostólico Romano. Ou melhor, voltei para os braços da Igreja. Passei por muita coisa. Conheci pessoas, ouvi, falei, agi, critiquei e fui criticado. Errei e acertei. Desacreditei, me converti, estudei e voltei para a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Hoje, rezo o terço todo dia, leio a Bíblia (que descobri ser diferente do livro que carregava todos os domingos debaixo do braço para ir ao culto) e o Catecismo. Amo a Igreja e a Maria. Comecei a participar da Pastoral de Acólitos da Paróquia. A jornada? Dura, árdua. Ninguém disse que seria fácil. Mas, Deus está comigo. E descobri que, nesse tempo inteiro de lutas, idas e vindas, Maria também estava. Me olhando, protegendo, abraçando. Enfim, amando.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo abençoe ao senhor, Padre Paulo Ricardo. Tens sido luz no Brasil. Oro pela sua vida e pelo seu trabalho. Seu, e de toda sua equipe. Que Nossa Senhora e São José o guiem num caminho de santidade e obediência. 

Natal/RN, 14 de abril de 2015 

Fiquem com Deus, 

Paulo."

O "Católico-protestante"


Antes de qualquer palavra, gostaria de desculpar-me com os generosos leitores pelo título que encabeça este texto, pelo seu absurdo antagonismo de conceitos. Porém, não encontro outra maneira de alcunhar este fenômeno, pois trata-se de um protestantismo dentro da Santa Igreja Católica. De maneira, que tomo a liberdade de alternar os termos "Protestante-católico" e "católico-protestante", pois ambos são aberrações inaceitáveis.

 Por conceito, "Católico", significa "Universal", ou seja, aquele que adere à Fé inteira e à Igreja inteira. Protestante, em contrapartida, é alguém que diante de duas verdades de Fé que encontram-se em aparente tensão, em aparente contradição, rejeita uma das verdades e faz uma escolha: daí o fato de o protestantismo ser uma Heresia. Heresia, do Latim Haeresis, quer dizer "escolha", ou seja, como dissemos antes, o protestante escolhe no quê crer. 

O protestantismo é uma Heresia condenada tanto pelo Concílio de Trento, quanto pela Bula Exsurge Domine, onde o Papa Leão X, imbuído do "poder das chaves" (Mt 16,18)  conferida por Nosso Senhor Jesus Cristo a São Pedro e seus sucessores, condena como heresia o protestantismo, como se segue:

"Com o conselho e consenso desses nosso veneráveis irmãos, com deliberação amadurecida sobre cada uma das proposições supra, e pela autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de nossa própria autoridade, nós condenamos, reprovamos, e rejeitamos completamente cada uma dessas teses ou erros como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos aos ouvidos piedosos ou sedutores das mentes simples, e contra a verdade católica." 

O Papa Leão X não só condena o protestantismo como Heresia, mas imputa uma pena canônica a quem quer que desobedeça tal determinação e adira aos textos e às teses propugnadas por Lutero:

"Listando-os, nós decretamos e declaramos que todos os fiéis de ambos os sexos devem considerá-los como condenados, reprovados e rejeitados... Nós os proibimos a todos em nome da santa obediência e sob as penas de uma automática excomunhão..."

Depois de tão veemente condenação por um digno e legítimo sucessor de Pedro, detentor de poderes conferidos por Nosso Senhor Jesus Cristo, a pergunta que ressoa nos corações dos bons e fiéis católicos de hoje é: Por quê esse pensamento protestante ainda encontra adeptos na Igreja Católica? Como são os "Católicos protestantes"?

Esse pensamento ainda encontra adeptos na Igreja devido: à crise de autoridade reinante nos ambientes eclesiásticos, onde o leigo não reconhece mais a autoridade do Sagrado Magistério, fazendo a "escolha" de deliberadamente não obedecer o Magistério, ainda que a verdade acerca da necessidade da observância da lei lhe seja revelada. Além disso, há a ditadura do relativismo, denunciada pelo então Cardeal Ratzinger em 2005, e que faz com que a autoridade  o magistério seja relativizada em função do período histórico, das culturas etc. 

Também penso que a Teologia da Libertação pode ter importante papel no desenvolvimento deste fenômeno, pois o pensamento marxista flexibiliza a doutrina e os Evangelhos ao bel prazer da ideologia, o que faz com que uma pregação ortodoxa da Doutrina praticamente inexista. Além disso, há movimentos dentro da Igreja que se caracterizam por uma espiritualidade mais voltada ao pentecostalismo, como setores mais desinformados e ignorantes da Renovação Carismática Católica. Deixo claro: há muitos setores da RCC que se empenham em se formarem doutrinalmente e serem fiéis ao Sagrado Magistério. Ignorantes e desobedientes há em todos os ambientes da Igreja. Mas o que resume tudo o que foi dito acima, na minha opinião, é o pensamento revolucionário.

Mas o que é essa absurda aberração vulgarmente alcunhada por mim de "Protestantismo-católico"?

O "Protrestante católico",  como todo protestante, escolhe seus próprios Dogmas! Ele, imbuído de uma atávica soberba; inflado com uma pseudo-autoridade, decide no quê crê e quando crê. É um verdadeiro self-service da Fé!

Não entende que para fazer uso do nome de 'católico" precisa necessariamente ser "Universal", ou seja, aderir a TODO o conjunto da Fé, com todos os seus Dogmas. Caso, por desgraça, ele passe a não crer mais num dos dogmas que compõem o edifício sagrado da Fé de dois mil anos, e passe a não professar mais integralmente o Credo Católico, já é protestante. Claro que há aqueles que têm problemas intelectuais com relação aos artigos da Fé, mas que professam a Fé, mesmo estando os artigos, para ele,  em aparentes contradições e que procuram com pertinácia e boa vontade a elucidação das questões que lhe corroem a alma.

O "protestante Católico" necessariamente é, ipso facto, um protestante, e como todo protestante, tem aversão ao qualquer coisa que se relacione com o Culto de Hiperdulia, prestado à Bem Aventurada sempre Virgem Maria, ou com o Culto de Dulia, prestado aos santos. O "Protestante-católico" tem aversão ao canto gregoriano, pois ao Canto Gregoriano é impossível adicionar todas as inovações e malabarismos sentimentalistas típicos da música protestante. Tem também aversão à música piedosa, pois a considera piegas demais e muito "parada", como se a Santa Missa devesse ter o "agito" de uma "balada", típica dos pagãos! O "Católico-protestante" abomina a liturgia tradicional, pois na Liturgia tradicional é impossível haver espaços para quaisquer adições abomináveis; é impossível abrir espaços para aberrações litúrgicas, que corroem todo o patrimônio litúrgico acumulado com esmero pelo Santos Padres através dos tempos. 

O Católico-protestante NUNCA consulta o parecer e a biografia dos santos da Igreja sobre os temas de Fé! Isto, porque se assim o fizesse, teria que inevitavelmente constatar a sua desonestidade com relação às coisas da Igreja. Se assim o fizesse, não seria um Católico-protestante, mas um genuíno católico. Se assim o fizesse, teria de ver-se apartado da infame e demoníaca doutrina do Sola Scriptura (Somente as escrituras como regra de Fé), para aderir à colossal teologia da escola dos Santos! Um católico-protestante não se submete à autoridade da Tradição: é muito soberbo para isso.

Uma atitude bem específica do católico-protestante, é tentar, a todo custo, reduzir ao mínimo a importância que tem a Santíssima Virgem Maria na vida da Igreja.

 Ele pensa, como um genuíno protestante, que a Virgem Maria é uma Mulher qualquer, baseado nos momentos em que Nosso Senhor dirige-se à Virgem Maria como "Mulher", crendo com isso, que Jesus a teria por uma mulher como as outras. Acontece, que o 'Protestante-católico" se acha um exímio hermenêuta e pensa tudo saber das escrituras. A soberba não o deixa contemplar a verdade de que Maria Santíssima é chamada de "Mulher" por Nosso Senhor, pois Ele quer exatamente pô-la inserida na obra da Salvação, fazendo alusão direta à "Mulher" do Gênesis e do Apocalipse, "Mulher" essa sobre a qual Deus promulgou uma inimizade perpétua contra a estirpe de Satanás! (Gen 3,15).

Não percebe o "Católico-protestante", que o ato de tentar esconder ou dimunir a Virgem Maria, assemelha-se - e muito - à ira atávica com a qual o dragão (figura de Satanás) tenta fazer Submergir a "Mulher" (figura da Virgem Maria), no Livro do Apocalipse. (Ap 12, 13-17). 

Não tenho nada, absolutamente nada contra os protestantes que nas suas comunidades eclesiais exercem o seu direito de culto decretado pela Constituição Brasileira de 1988. Mas como dizem os jovens de hoje, embalados pelo maldito funk: cada um no seu quadrado. O católico e Evangélicos protestantes devem unir-se naquilo que têm em comum: a luta contra a cultura de morte que assola o país, hoje nas mãos de Comunistas. 

Bem, assim eu identifico o "Católico-protestante". Infelizmente há aos montes nos bancos das Igrejas! 

Como cambatê-los?

 Estudando, tomando os Santos como exemplo fiel de seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, proclamando a Verdade católica oportuna e inoportunamente, tendo uma profunda e Verdadeira Devoção à Virgem Maria, e.... rezando muito por eles!

Viva Cristo Rei e Salve Maria Santíssima!

sábado, 18 de abril de 2015

O secularismo explícito do padre Fábio de Melo

Quando os religiosos se calam, são seus inimigos que se levantam e, sem nenhum pudor, vão fazer de tudo para que as pessoas não apenas aceitam os seus valores, mas os absorvam.

Escrito por Fábio Blanco 

Quando eu estava decidido a falar sobre outros assuntos, superando a questão da manifestação pública de religiosos e sua legitimidade, não é que me aparece o padre pop Fábio de Melo e solta, no twitter, uma sequência de pensamentos que são o exemplo perfeito de tudo o que eu venho expondo por aqui? Lançando meia-dúzia de espirros verbais, consequência, certamente, de um vírus modernista que, parece, tomou conta do sacerdote católico, ele acabou expectorando a visão laicista de sociedade que preenchia seu peito e ansiava ser colocada para fora.

O padre afirmou, sem nenhum rodeio, que “a união civil entre pessoas do mesmo sexo não é uma questão religiosa. Portanto, cabe ao Estado decidir”. E já, nisso, constatamos o aspecto esquizofrênico de suas palavras, expondo que é normal alguém ter duas personalidades, uma religiosa e outra pública e que existem questões que são exclusivamente religiosas, enquanto outras são exclusivamente civis. O que talvez ele não perceba, é que essa fragmentação, no ser e também na sociedade, é fruto de uma doença moderna, como bem alertou Francis Schaeffer, em seu livro A Morte da Razão, ao afirmar que, “não se pode ter verdadeira moral no mundo real uma vez feita essa dissociação. [Da mesma forma] não se tem uma base adequada para o direito, para a lei”. O que Schaeffer quer dizer é que, quando se abre mão da unidade do pensamento, quando se separa as ideias religiosas das civis, estas deixam de possuir qualquer moralidade, pois não têm onde encontrar referências. Mas, o que é mais absurdo nisso tudo, é um líder religioso não atentar para essas coisas, se tornando, dessa forma, um promotor dessa amoralidade social.

E, em uma demonstração explícita de sua fé, não em Jeová, claro, mas em Leviatã, Fábio de Melo ressalta que “o Estado decide através dos que são democraticamente eleitos por nós. São eles que propõem, votam e aprovam as leis”. De fato, ele não está dizendo, formalmente, nenhuma novidade, mas dentro de todo o contexto de suas afirmações, é evidente que o que ele está propondo é que as pessoas religiosas não devem tentar influenciar seus eleitos, expondo suas convicções. Como se os representantes do povo, ao assumirem seus mandatos, se desvinculassem de seus eleitores, agindo de maneira autônoma e com base, apenas, em suas próprias ideias pessoais. Ele esquece que os congressistas não recebem uma carta branca de quem votou neles para fazerem o que bem entenderem, mas devem, sim, refletir a vontade de seus eleitores. E, falando do tema levantado pelo padre, até aqui, a maioria da população brasileira não tem se mostrado favorável ao casamento gay. Portanto, suas afirmações não passam de desvirtuamento, uma forma de despistar os olhos das pessoas do problema principal. Na verdade, o que ele está fazendo é exigir que os fiéis de sua igreja calem a boca e assistam, passivamente, os grupos que trabalham a favor dos direitos dos homossexuais impor sua agenda.

Isso fica ainda mais claro quando o sacerdote diz que “aos líderes religiosos reserva-se o direito de estabelecerem suas regras e ensiná-las aos seus fiéis. E isto o Estado também garante”. Ora, se eu não soubesse quem é o padre Fabio de Melo diria que o seu perfil fora hackeado, pois suas palavras passam ao largo do que se espera de um representante da Igreja. O que ele está afirmando nada mais é que os religiosos não têm direito à voz na sociedade. Que eles podem, por causa de uma mera concessão estatal, discutir seus dogmas internamente, mas que não ousem sair de seus currais eclesiásticos. Nem da boca de ateístas ferrenhos lembro ter ouvido palavras tão segregacionistas! Primeiro, não são os líderes religiosos que estabelecem as regras e ele, como um deles, deveria saber muito bem disso. Ao falar dessa forma engana, propositalmente, sua audiência, dando a impressão que as regras religiosas são meros reflexos das idiossincrasias dos homens. E isso é um típico discurso de um inimigo da Igreja. Em segundo lugar, os religiosos são parte, e constituem uma proporção considerável, da sociedade. Não há, portanto, como ignorar suas demandas, sua forma de enxergar a vida e, também, suas rejeições. E, se estamos em uma democracia, como tanto gostam de afirmar esses filhos da modernidade, por que, então, eles não respeitam-na, principalmente quando a vontade da maioria vai de encontro com suas ideologias?

E, quem diria, eu estaria vivo para presenciar um padre falando, abertamente, contra sua própria instituição!? Fabio de Melo, por mais surpreendente que isso seja, não se sente nem um pouco constrangido em estabelecer que “as igrejas não podem, por respeito ao direito de cidadania, privar as pessoas, que não optaram por uma pertença religiosa, de regularizarem suas necessidades civis“. O que ele está dizendo é muito fácil entender. Ele está determinando que a união civil de homossexuais é um direito indiscutível e deve ser permitida, de qualquer maneira. No entanto, para quem acabara de afirmar que religiosos não devem dar palpites públicos, com base em suas convicções, o padre está sendo bem explícito ao dar o seu. Mas, é claro, o que ele quer dizer, na verdade, é que os religiosos não devem influenciar as decisões públicas quando forem a favor da visão cristã. Se, pelo contrário, forem contra o cristianismo, como é o caso da convicção do próprio padre, aí, sim, eles têm direito de falar o que bem entendem e tentar influenciar as pessoas.

Como vimos aqui, e como eu venho afirmando, quando um lado deixa de expor suas convicções, o outro impõe as deles. Estas afirmações do padre apenas corroboram tudo aquilo que eu tenho compartilhado com vocês: que, na política e na cultura, não há vácuos morais, nem de ideias. Se um dos lados se abstém de influenciar a sociedade, ensinando sobre sua cosmovisão, não adianta achar que vai se criar um campo neutro, amoral, livre de princípios. Na verdade, quando os religiosos se calam, são seus inimigos que se levantam e, sem nenhum pudor, vão fazer de tudo para que as pessoas não apenas aceitem seus valores, mas os absorvam, até o ponto que a religião e seus princípios sejam suprimidos completamente.

E, não se enganem, Fabio de Melo não está sendo ingênuo, nem está errando por entender de maneira equivocada a realidade que o cerca. Suas palavras tornam evidente que ele é, de fato, um agente secularista, com convicções secularistas, que está dentro da Igreja apenas para tentar calá-la ou desvirtuar o seu discurso. E se ele ainda usa batina (ah! me desculpem, ele nem me parece muito afeiçoado a essa vestimenta) é porque acima dele também existem alguns que não discordam tanto de tudo aquilo que o padre anda falando por aí.

http://www.fabioblanco.com.br

terça-feira, 7 de abril de 2015

POR QUE O NAZISMO ERA SOCIALISMO E POR QUE O SOCIALISMO É TOTALITÁTRIO


Por George Reisman*

Minha intenção é expor dois pontos principais: (1) Mostrar que a Alemanha Nazista era um estado socialista, e não capitalista. E (2) mostrar por que o socialismo, compreendido como um sistema econômico baseado na propriedade estatal dos meios de produção, necessariamente requer uma ditadura totalitária.

A caracterização da Alemanha Nazista como um estado socialista foi uma das grandes contribuições de Ludwig von Mises.

Quando nos recordamos de que a palavra “Nazi” era uma abreviatura de “der Nationalsozialistische Deutsche Arbeiters Partei” — Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães—, a caracterização de Mises pode não parecer tão notável. O que se poderia esperar do sistema econômico de um país comandado por um partido com “socialista” no nome além de ser socialista?

Não obstante, além de Mises e seus leitores, praticamente ninguém pensa na Alemanha Nazista como um estado socialista. É muito mais comum se acreditar que ela representou uma forma de capitalismo, aquilo que comunistas e marxistas em geral têm alegado.

A base do argumento de que a Alemanha Nazista era capitalista é o fato de que a maioria das indústrias foi aparentemente deixada em mãos privadas.

O que Mises identificou foi que a propriedade privada dos meios de produção existia apenas nominalmente sob o regime Nazista, e que o verdadeiro conteúdo da propriedade dos meios de produção residia no governo alemão. Pois era o governo alemão e não o proprietário privado nominal quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem seria distribuído, bem como quais preços seriam cobrados e quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seria permitido ao proprietário privado nominal receber.

A posição do que se alega terem sido proprietários privados era reduzida essencialmente à função de pensionistas do governo, como Mises demonstrou.

A propriedade governamental “de fato” dos meios de produção, como Mises definiu, era uma consequência lógica de princípios coletivistas fundamentais adotados pelos nazistas como o de que o bem comum vem antes do bem privado e de que o indivíduo existe como meio para os fins do estado. Se o indivíduo é um meio para os fins do estado, então, é claro, também o é sua propriedade. Do mesmo modo em que ele pertence ao estado, sua propriedade também pertence.

Mas o que especificamente estabeleceu o socialismo “de fato” na Alemanha Nazista foi a introdução do controle de preços e salários em 1936. Tais controles foram impostos como resposta ao aumento na quantidade de dinheiro na economia praticada pelo regime nazista desde a época da sua chegada ao poder, no início de 1933. O governo nazista aumentou a quantidade de dinheiro no mercado como meio de financiar o vasto aumento nos gastos governamentais devido a seus programas de infraestrutura, subsídios e rearmamento. O controle de preços e salários foi imposto em resposta ao aumento de preços resultante desta inflação.

O efeito causado pela combinação entre inflação e controle de preços foi a escassez, ou seja, a situação na qual a quantidade de bens que as pessoas tentam comprar excede a quantidade disponível para a venda.

As escassezes, por sua vez, resultam em caos econômico. Não se trata apenas da situação em que consumidores que chegam mais cedo estão em posição de adquirir todo o estoque de bens, deixando o consumidor que chega mais tarde sem nada — uma situação a que os governos tipicamente respondem impondo racionamentos. Escassezes resultam em caos por todo o sistema econômico. Elas tornam aleatória a distribuição de suprimentos entre as regiões geográficas, a alocação de um fator de produção dentre seus diferentes produtos, a alocação de trabalho e capital dentre os diferentes ramos do sistema econômico.

Face à combinação de controle de preços e escassezes, o efeito da diminuição na oferta de um item não é, como seria em um mercado livre, o aumento do preço e da lucratividade, operando o fim da diminuição da oferta, ou a reversão da diminuição se esta tiver ido longe demais. O controle de preços proíbe o aumento do preço e da lucratividade. Ao mesmo tempo, as escassezes causadas pelo controle de preços impedem que aumentos na oferta reduzam o preço e a lucratividade de um bem. Quando há uma escassez, o efeito de um aumento na oferta é apenas a redução da severidade desta escassez. Apenas quando a escassez é totalmente eliminada é que um aumento na oferta necessita de uma diminuição no preço, trazendo consigo uma diminuição na lucratividade.

Como resultado, a combinação de controle de preços e escassezes torna possíveis movimentos aleatórios de oferta sem qualquer efeito no preço ou na lucratividade. Nesta situação, a produção de bens dos mais triviais e desimportantes, como bichinhos de pelúcia, pode ser expandida à custa da produção dos bens importantes e necessários, como medicamentos, sem efeito sobre o preço ou lucratividade de nenhum dos bens. O controle de preços impediria que a produção de remédios se tornasse mais lucrativa, conforme a sua oferta fosse diminuindo, enquanto a escassez mesmo de bichinhos de pelúcia impediria que sua produção se tornasse menos lucrativa conforme sua oferta fosse aumentando.

Como Mises demonstrou,  para lidar com os efeitos indesejados decorrentes do controle de preços, o governo deve abolir o controle de preços ou ampliar tais medidas, precisamente, o controle sobre o que é produzido, em qual quantidade, por meio de quais métodos, e a quem é distribuído, ao qual me referi anteriormente. A combinação de controle de preços com estas medidas ampliadas constituem a socialização “de fato” do sistema econômico. Pois significa que o governo exerce todos os poderes substantivos de propriedade.

Este foi o socialismo instituído pelos nazistas. Mises o chama de modelo alemão ou nazista de socialismo, em contraste ao mais óbvio socialismo dos soviéticos, ao qual ele chama de modelo russo ou bolchevique de socialismo.

O socialismo, é claro, não acaba com o caos causado pela destruição do sistema de preços. Ele apenas perpetua esse caos. E se introduzido sem a existência prévia de controle de preços, seu efeito é inaugurar este mesmo caos. Isto porque o socialismo não é um sistema econômico verdadeiramente positivo. É meramente a negação do capitalismo e seu sistema de preços. E como tal, a natureza essencial do socialismo é a mesma do caos econômico resultante da destruição do sistema de preços por meio do controle de preços e salários.

(Quero demonstrar que a imposição de cotas de produção no estilo bolchevique de socialismo, com a presença de incentivos por todos os lados para que estas sejam excedidas, é uma fórmula certa para a escassez universal da mesma forma como ocorre quando se controla preços e salários.)

No máximo, o socialismo meramente muda a direção do caos. O controle do governo sobre a produção pode tornar possível uma maior produção de alguns bens de especial importância para si mesmo, mas faz isso à custa de uma devastação de todo o resto do sistema econômico. Isto porque o governo não tem como saber dos efeitos no resto do sistema econômico da sua garantia da produção dos bens aos quais atribui especial importância.

Os requisitos para a manutenção do sistema de controle de preços e salários trazem à luz a natureza totalitária do socialismo — mais obviamente, é claro, na variante alemã ou nazista de socialismo, mas também no estilo soviético.

Podemos começar com o fato de que o autointeresse financeiro dos vendedores operando sob o controle de preços seja de contornar tais controles e aumentar seus preços. Compradores, antes impossibilitados de obter os bens, estão dispostos a — na verdade, ansiosos para — pagar estes preços mais altos como meio de garantir os bens por eles desejados. Nestas circunstâncias, o que pode impedir o aumento dos preços e o desenvolvimento de um imenso mercado negro?

A resposta é a combinação de penas severas com uma grande probabilidade de ser pego e, então, realmente punido. É provável que meras multas não gerem a dissuasão necessária. Elas serão tidas como simplesmente um custo adicional. Se o governo deseja realmente fazer valer o controle de preços, é necessário que imponha penalidades comparadas àquelas dos piores crimes.

Mas a mera existência de tais penas não é o bastante. O governo deve tornar realmente perigosa a condução de transações no mercado negro. Deve fazer com que as pessoas temam que agindo desta forma possam, de alguma maneira, ser descobertas pela polícia, acabando na cadeia. Para criar tal temor, o governo deve criar um exército de espiões e informantes secretos. Por exemplo, o governo deve fazer com que o dono da loja e o seu cliente tenham medo de que, caso venham a se engajar em uma transação no mercado negro, algum outro cliente na loja vá lhe informar.

Devido à privacidade e sigilo em que muitas transações no mercado negro ocorrem, o governo deve ainda fazer com que qualquer participante de tais transações tenha medo de que a outra parte possa ser um agente da polícia tentando apanhá-lo. O governo deve fazer com que as pessoas temam até mesmo seus parceiros de longa data, amigos e parentes, pois até eles podem ser informantes.

E, finalmente, para obter condenações, o governo deve colocar a decisão sobre a inocência ou culpa em casos de transações no mercado negro nas mãos de um tribunal administrativo ou seus agentes de polícia presentes. Não pode contar com julgamentos por júris, devido à dificuldade de se encontrar número suficiente de jurados dispostos a condenar a vários anos de cadeia um homem cujo crime foi vender alguns quilos de carne ou um par de sapatos acima do preço máximo fixado.

Em suma, a partir daí o requisito apenas para a aplicação das regulamentações de controle de preços é a adoção de características essenciais de um estado totalitário, nominalmente o estabelecimento de uma categoria de “crimes econômicos”, em que a pacífica busca pelo autointeresse material é tratada como uma ofensa criminosa grave. Para tanto é necessário o estabelecimento de um aparato policial totalitário, repleto de espiões e informantes, com o poder de prisões arbitrárias.

Claramente, a imposição e a fiscalização do controle de preços requerem um governo similar à Alemanha de Hitler ou à Rússia de Stalin, no qual praticamente qualquer pessoa pode ser um espião da polícia e no qual uma polícia secreta existe e tem o poder de prender pessoas. Se o governo não está disposto a ir tão longe, então, nesta medida, o controle de preços se prova inaplicável e simplesmente entra em colapso. Nesse caso, o mercado negro assume maiores proporções.

(Observação: não estou sugerindo que o controle de preços foi a causa do reino de terror instituído pelos nazistas. Estes iniciaram seu reino de terror bem antes da decretação do controle de preços. Como resultado, o controle de preços foi decretado em um ambiente feito para a sua aplicação.)

As atividades do mercado negro exigem o cometimento de outros crimes. Sob o socialismo “de fato”, a produção e a venda de bens no mercado negro exige o desafio às regulamentações governamentais no que diz respeito à produção e à distribuição, bem como o desafio ao controle de preços. Por exemplo, o governo pretende que os bens que são vendidos no mercado negro sejam distribuídos de acordo com seu planejamento, e não de acordo com o do mercado negro. O governo pretende, igualmente, que os fatores de produção usados para se produzir aqueles bens sejam utilizados de acordo com o seu planejamento, e não com o propósito de suprir o mercado negro.

Sobre um sistema socialista “de direito”, como o que existia na Rússia soviética, no qual o ordenamento jurídico do país aberta e explicitamente tornava o governo o proprietário dos meios de produção, toda a atividade do mercado negro, necessariamente, exige a apropriação indébita ou o roubo da propriedade estatal. Por exemplo, considerava-se que os trabalhadores e gerentes de fábricas na Rússia soviética que tiravam produtos destas para vender no mercado negro estavam roubando matéria-prima fornecida pelo estado.

Além disso, em qualquer tipo de estado socialista — nazista ou comunista —, o plano econômico do governo é parte da lei suprema do país. Temos uma boa ideia de quão caótico é o chamado processo de planejamento do socialismo. O distúrbio adicional causado pelo desvio, para o mercado negro, de suprimentos de produção e outros bens é algo que o estado socialista toma como um ato de sabotagem ao planejamento econômico nacional. E sabotagem é como o ordenamento jurídico dos estados socialistas se refere a isto. Em concordância com este fato, atividades de mercado negro são, com frequência, punidas com pena de morte.

Um fato fundamental que explica o reino de terror generalizado encontrado sob o socialismo é o incrível dilema em que o estado socialista se coloca em relação à massa de seus cidadãos. Por um lado, o estado assume total responsabilidade pelo bem-estar econômico individual. O estilo de socialismo russo ou bolchevique declara abertamente esta responsabilidade — esta é a fonte principal do seu apelo popular. Por outro lado, o estado socialista desempenha essa função de maneira desastrosa, tornando a vida do indivíduo um pesadelo.

Todos os dias de sua vida, o cidadão de um estado socialista tem de perder tempo em infindáveis filas de espera. Para ele, os problemas enfrentados pelos americanos com a escassez de gasolina nos anos 1970 são normais; só que ele não enfrenta este problema em relação à gasolina — pois ele não tem um carro e nem a esperança de ter — mas sim em relação a itens de vestuários, verduras, frutas, e até mesmo pão.

Pior ainda: ele é forçado a trabalhar em um emprego que não foi por ele escolhido e que, por isso, deve odiar. (Já que sob escassezes, o governo acaba por decidir a alocação de trabalho da mesma maneira que faz com a alocação de fatores de produção materiais.) E ele vive em uma situação de inacreditável superlotação, com quase nenhuma chance de privacidade. Frente à escassez habitacional, pessoas estranhas são designados pelo governo a morarem juntas; famílias são obrigadas a compartilhar apartamentos. Um sistema de passaportes e vistos internos é adotado a fim de limitar a severidade da escassez habitacional em áreas mais desejáveis do país. Expondo suavemente, uma pessoa forçada a viver em tais condições deve ferver de ressentimento e hostilidade.

Contra quem seria lógico que os cidadãos de um estado socialista dirigissem seu ressentimento e hostilidade se não o próprio estado socialista? Contra o mesmo estado socialista que proclamou sua responsabilidade pela vida deles, prometeu uma vida de bênção, e que é responsável por proporcionar-lhes uma vida de inferno. De fato, os dirigentes de um estado socialista vivem um dilema no qual diariamente encorajam o povo a acreditar que o socialismo é um sistema perfeito em que maus resultados só podem ser fruto do trabalho de pessoas más. Se isso fosse verdade, quem poderiam ser estas pessoas más senão os próprios líderes, que não apenas tornaram a vida um inferno, mas perverteram a este ponto um sistema supostamente perfeito?

A isso se segue que os dirigentes de um estado socialista devem temer seu povo. Pela lógica das suas ações e ensinamentos, o fervilhante e borbulhante ressentimento do povo deveria jorrar e engoli-los numa orgia de vingança sangrenta. Os dirigentes sentem isso, ainda que não admitam abertamente; e, portanto, a sua maior preocupação é sempre manter fechada a tampa da cidadania.

Consequentemente, é correto, mas bastante inadequado, dizer apenas que “o socialismo carece de liberdade de imprensa e expressão.” Carece, é claro, destas liberdades. Se o governo é dono de todos os jornais e gráficas, se ele decide para quais propósitos a prensa e o papel devem ser disponibilizados, então obviamente nada que o governo não desejar poderá ser impresso. Se a ele pertencem todos os salões de assembléias e encontros, nenhum pronunciamento público ou palestra que o governo não queira não poderá ser feita. Mas o socialismo vai muito além da mera falta de liberdade de imprensa e de expressão.

Um governo socialista aniquila totalmente estas liberdades. Transforma a imprensa e todo foro público em veículos de propaganda histérica em prol de si mesmo, e pratica cruéis perseguições a todo aquele que ouse desviar-se uma polegada da linha do partido oficial.

A razão para isto é o medo que o dirigente socialista tem do povo. Para se proteger, eles devem ordenar que o ministério da propaganda e a polícia secreta façam de tudo para reverter este medo. O primeiro deve tentar desviar constantemente a atenção do povo quanto à responsabilidade do socialismo, e dos dirigentes socialistas, em relação à miséria do povo. O outro deve desestimular e silenciar qualquer pessoa que possa, mesmo que remotamente, sugerir a responsabilidade do socialismo ou de seus dirigentes em relação à miséria do povo — ou seja, deve desestimular qualquer um que comece a mostrar sinais de estar pensando por si mesmo.

É por causa do terror dos dirigentes, e da sua necessidade desesperada de encontrar bodes-expiatórios para as falhas do socialismo, que a imprensa de um país socialista está sempre cheia de histórias sobre conspirações e sabotagens estrangeiras, e sobre corrupção e mau gerenciamento da parte de oficiais subordinados, e por que, periodicamente, é necessário desmascarar conspirações domésticas e sacrificar oficiais superiores e facções inteiras do partido em gigantescos expurgos.

E é por causa do seu terror, e da sua necessidade desesperada de esmagar qualquer suspiro de oposição em potencial, que os dirigentes do socialismo não ousam permitir nem mesmo atividades puramente culturais que não estejam sob o controle do estado. Pois se o povo se reúne para uma amostra de arte ou um sarau de literário que não seja controlado pelo estado, os dirigentes devem temer a disseminação de idéias perigosas. Quaisquer idéias não-autorizadas são idéias perigosas, pois podem levar o povo a pensar por si mesmo e, a partir daí, começar a pensar sobre a natureza do socialismo e de seus dirigentes. Estes devem temer a reunião espontânea de qualquer punhado de pessoas em uma sala, e usar a polícia secreta e seu aparato de espiões, informantes, e mesmo o terror para impedir tais encontros ou ter certeza de que seu conteúdo é inteiramente inofensivo do ponto de vista do estado.

O socialismo não pode ser mantido por muito tempo, exceto por meio do terror. Assim que o terror é relaxado, ressentimento e hostilidade logicamente começam a jorrar contra seus dirigentes. O palco está montado, então, para uma revolução ou uma guerra civil. De fato, na ausência de terror, ou, mais corretamente, de um grau suficiente de terror, o socialismo seria caracterizado por uma infindável série de revoluções e guerras civis, conforme cada novo grupo dirigente se mostrasse tão incapaz de fazer o socialismo funcionar quanto foram seus predecessores.

A inescapável conclusão a ser traçada é a de que o terror experimentado nos países socialistas não foi simplesmente culpa de homens maus, como Stalin, mas sim algo que brota da natureza do sistema socialista. Stalin vem à frente porque sua incomum perspicácia e disposição ao uso do terror foram as características específicas mais necessárias para um líder socialista se manter no poder. Ele ascendeu ao topo por meio de um processo de seleção natural socialista: a seleção do pior.

Por fim, é necessário antecipar um possível mal-entendido em relação à minha tese de que o socialismo é totalitário por natureza. Diz respeito aos países supostamente socialistas dirigidos por social-democratas, como a Suécia e outros países escandinavos, que claramente não são ditaduras totalitárias.

Neste caso, é necessário que se entenda que não sendo estes países totalitários, não são também socialistas. Os partidos que os governam podem até sustentar o socialismo como sua filosofia e seu fim último, mas socialismo não é o que eles implementaram como seu sistema econômico. Na verdade, o sistema econômico vigente em tais países é a economia de mercado obstruída, como Mises definiu. Ainda que seja mais obstruído do que o nosso em aspectos importantes, seu sistema econômico é essencialmente similar ao nosso, no qual a força motora característica da produção e da atividade econômica não é o governo, mas sim a iniciativa privada motivada pela perspectiva de lucro.

A razão pela qual social-democratas não estabelecem o socialismo quando estão no poder, é que eles não estão dispostos a fazer o que seria necessário. O estabelecimento do socialismo como um sistema econômico requer um ato maciço de roubo — os meios de produção devem ser expropriados de seus donos e tomados pelo estado. É virtualmente certo que tais expropriações provoquem grande resistência por parte dos proprietários, resistência que só pode ser vencida pelo uso de força bruta.

Os comunistas estavam e estão dispostos a usar esta força, como evidenciado na União Soviética. Seu caráter é o dos ladrões armados preparados para matar caso isso seja necessário para dar cabo dos seus planos. O caráter dos social-democratas, em contraste, é mais próximo ao dos batedores de carteira: eles podem até falar em coisas grandiosas, mas não estão dispostos a praticar a matança que seria necessária; e desistem ao menor sinal de resistência séria.

Já os nazistas, em geral não tiveram que matar para expropriar a propriedade dos alemães, fora os judeus. Isto porque, como vimos, eles estabeleceram o socialismo discretamente, por meio do controle de preços, que serviu para manter a aparência de propriedade privada. Os proprietários eram, então, privados da sua propriedade sem saber e, portanto, sem sentir a necessidade de defendê-la pela força.

Creio ter demonstrado que o socialismo — o socialismo de verdade — é totalitário pela sua própria natureza.

*Tradução de Fábio M. Ostermann

Estraído de http://tercalivre.com/

"O Brasil 'fez' a Venezuela." Olavo de Carvalho, em entrevista ao jornal A Tarde


O filósofo e professor Olavo de Carvalho é hoje o maior expoente do pensamento de direita em âmbito nacional. Nesta entrevista realizada por e-mail, o filósofo, residente dos EUA, diz que o reavivamento da direita é resposta à prepotência da esquerda que desembocou no assalto aos cofres públicos. Mas ele aponta que somente a "inteligência individual" é capaz de contrapor-se à esquerda em uma "guerra cultural". 

Muitos brasileiros foram às ruas no domingo (15/03) impulsionados, em sua maioria, pelo escândalo do Petrolão e pedindo a deposição da presidente Dilma Roussef. O senhor entende que seja a corrupção sistemática, como apontou o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, o mal maior gerado nos governos petistas?

Sem dúvida, mas esse mal não surgiu sozinho. Ele nasceu desde dentro de um vasto projeto de poder e é parte integrante desse projeto. Afinal, os crimes de corrupção não foram cometidos para enriquecer este ou aquele indivíduo isoladamente, mas para financiar o PT. Esse é o mal mais vistoso, mas ele não é a raiz, é o resultado final de um processo corruptor muito mais profundo, que começou com a adoção da estratégia de Antonio Gramsci para a tomada do poder e assumiu forma decisiva com a fundação do Foro de São Paulo de 1990. O projeto de Antonio Gramsci consiste basicamente em ludibriar toda a sociedade para que aceite o socialismo sem percebê-lo, até que o partido que comanda o processo adquira - são palavras dele - "o poder invisível e onipresente de um imperativo categórico de um mandamento divino". Nessa perspectiva, o Partido é o único juiz de si mesmo e pode fazer o que bem entenda, sem prestar contas à população e sem nem lhe explicar o que está acontecendo. A corrupção financeira é apenas o aspecto mais exterior que acaba assumindo a corrupção muito mais profunda de toda vida social e política. O Foro de São Paulo se arroga o direito de governar em segredo um continente inteiro, determinando o curso da vida de dezenas de povos, sem lhes prestar a mínima satisfação e, é claro, sem jamais se submeter ao seu julgamento moral. O direito de roubar é só a expressão financeira do direito mais geral de ludibriar.

Esse foi o primeiro movimento de massas identificado com a direita desde o início do governo Sarney. Como o senhor entende esse período de acabrunhamento da direita e o que a fez despertar neste momento?

A estratégia de Antonio Gramsci inclui como elemento essencial a "ocupação de espaços", que significa preencher com elementos da esquerda todos os postos na educação, na mídia, nas instituições culturais e, por fim, na administração pública, tomando de uma possível oposição direitista todos os meios de se fazer ouvir. Nos anos 90, essa operação já foi coroada de sucesso, de modo que já não havia uma oposição de direita não somente no Parlamento, mas em parte alguma. Lula celebrava como apoteose da democracia o fato de que nas eleições presidenciais todos os candidatos fossem de esquerda. A esquerda tinha o monopólio absoluto da palavra, o restante da sociedade caiu na "espiral do silêncio" e perdeu até todo o desejo de falar. Foi só quando a prepotência da esquerda assumiu a forma do assalto geral e cínico aos cofres públicos, que a opinião excluída acabou por se ver praticamente obrigada a manifestar-se de novo.

O senhor é apontado por muitos líderes destes movimentos que pedem a saída de Dilma e que são contra o comunismo como o responsável pela quebra de uma "espiral de silêncio" que marginalizava o pensamento à direita. O senhor vislumbra para os próximos anos um ambiente favorável a verdadeiros debates, uma vez que o pensamento de esquerda é hegemônico entre profissionais de imprensa, na academia e no meio artístico?

A esquerda dominante jamais aceitará o debate franco, pois sabe que vive de mentirinhas tolas e que num confronto honesto sairá sempre perdendo. Sua única esperança é tapar definitivamente as bocas dos discordantes para que não mostrem que o rei está nu. Se queremos restaurar a possibilidade de um debate franco, teremos de impor isso à força.

Em um dos artigos de "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", o senhor explica porque não é um liberal, mas um conservador. Vê-se nos movimentos a união destas duas correntes. Isto demonstra a incipiência desta nova direita? Qual diferenciação o senhor faz entre elas?

Basicamente, liberais (especialmente libertarians) e conservadores se distinguem porque os primeiros privilegiam a argumentação econômica, fazendo vista grossa à guerra cultural,  que é justamente o ponto principal da estratégia da esquerda. Conservadores, por seu lado, insistem na argumentação cultural e moral ao ponto de às vezes, deixar-se enganar pelo conservadorismo moralista de um Vladimir Putin. Nenhuma corrente ideológica é jamais inteligente o bastante para se mover com agilidade entre as sutilezas da vida política. Só inteligência individual é capaz de dar conta das ambiguidades e astúcias de uma situação política em mutação veloz.

O senhor vem denunciando há anos a influência do Foro de São Paulo sobre a política brasileira e da América Latina. O governo brasileiro não se manifesta contra o que ocorre na Venezuela, por exemplo, onde opositores são presos ou mortos. O Brasil pode chegar a isso?

Acho até engraçado quando ouço advertir que "o Brasil pode virar uma Venezuela". O Brasil "fez" a Venezuela. No discurso do décimo quinto aniversário do Foro de São Paulo, o senhor. Lula confessou isso abertamente. O regime Hugo Chavez foi concebido no Brasil e criado através do Foro de São Paulo. Em segundo lugar, até muito recentemente, a Venezuela estava muito melhor que o Brasil, pois lá havia uma oposição atuante e combativa, enquanto o nosso povo, aceitava com passividade bovina e silêncio de pedra toda imposição do esquerdismo dominante.

Qual a gravidade de o PT ser ligado ao Foro de São Paulo? Por que o senhor defende que o Foro de São Paulo deve ser excluído da política brasileira?

Em primeiro lugar, o Foro articula, numa estratégia global, partidos legais e organizações criminosas de terroristas, de narcotraficantes, de sequestradores. Isso faz dele, como um todo, uma organização criminosa. Em segundo lugar, o Foro atuou de maneira clandestina, negando sua própria existência, até quando foi forçado a admiti-la pelas denúncias sucessivas que eu mesmo divulguei. Como se pode admitir que a política de um país ou, pior ainda, de vários deles, seja determinada por uma entidade clandestina, calculada, nas palavras do senhor Lula "para que ninguém soubesse do que estávamos falando"? Como pode haver normalidade democrática se as decisões são tomadas em conluio com criminosos estrangeiros e se nós, o povo, não temos sequer o direito de saber do que eles estão falando?

O senhor também é um grande crítico do sistema educacional brasileiro. De que forma esta "deseducação" contribui para a formação da hegemonia à esquerda?

A doença principal da educação brasileira foi a adoção do sistema de alfabetização chamado "socioconstrutivista", criado inteiramente por estrategistas comunistas como Lev Vigotsky, Emilia Ferreiro e Paulo Freire para transformar as crianças em servos dóceis de um movimento político, com total desprezo pelo desenvolvimento real das suas capacidades. Hoje em dia está mais do que provado que o sistema socioconstrutivista destrói a inteligência das crianças e produz até mesmo lesões cerebrais. Os responsáveis pela adoção desse sistema são diretamente culpados pelo fracasso retumbante das nossas crianças, amplamente comprovado pelos testes internacionais. Esses homens não são educadores, são criminosos

O senhor defende uma hegemonia da direita? Em que ela seria mais saudável que a atual hegemonia?

Já tivemos uma hegemonia da direita durante o regime militar. Ela fez algumas coisas boas na esfera econômica mas, por ter idéias estereotipadas sobre o comunismo e nada entender da estratégia gramsciana, deixou o campo livre para que a esquerda se apossasse da mídia, do mundo editorial e do sistema educacional. Direitismo não é atestado de inteligência.

Costuma-se apontar o PSDB como a direita brasileira, e aqueles que protestam contra os governos petistas como "golpistas", representantes de uma "elite branca opressora". O que há de errado nestas qualificações?

Não se pode falar do PSDB inteiro, onde há homens bons e maus. O que é certo é que seus líderes mais destacados, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra, estão comprometidos até à medula com o esquema do Foro de São Paulo. Estão entre os seus maiores aliados e protetores. Isso remonta pelo menos a 1993, quando o senhor. Fernando Henrique Cardoso teve uma reunião secreta com os dirigentes do Foro e os do "Diálogo Interamericano" que é o think tank da ala mais esquerdista do Partido Democrata Americano. O que se tem feito para esconder o conteúdo das decisões ali tomadas forma uma das mais estranhas histórias de mistério do mundo. Já contei isso várias vezes e não vou me repetir aqui.

O senhor vislumbra um Brasil melhor após o 15 de março? Em que estas manifestações são distintas daquelas de 2013? Por que se diz que em 2013 o povo protestou e agora se diz que foram as elites descontentes e desejosas de um terceiro turno?

Essa opinião nem merece resposta. Basta ver as fotos e vídeos das passeatas para saber que as camadas populares estavam ali muito bem representadas, enquanto a "elite", especialmente a da mídia, fazia o possível para achincalhar o movimento e deformar a sua identidade. Termos como "burguesia", "proletariado", "elite", "povo" etc., na boca de esquerdistas, quase nunca designam conceitos descritivos, ancorados em dados da realidade. São símbolos, estereótipos, slogans e senhas que nada dizem da realidade exterior, mas expressam apenas o sentimento de identidade de um grupo ativista, a mitologia que sustenta a sua existência e unidade enquanto grupo, ao mesmo tempo que delineiam, na mente dos seus membros, a imagem do inimigo ideal a ser odiado, temido e achincalhado - inimigo que, quando não é totalmente inexistente, pelo menos jamais está no lugar onde o apontam.