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domingo, 6 de novembro de 2011

O ser humano é redimido pela Cruz


Joseph Ratzinger

O ser humano é redimido pela cruz; o crucificado é, em sua abertura total, a verdadeira salvação do ser humano. Em outro contexto já tentamos explicar para mentalidade atual essa afirmação central da fé cristã. Analisando-a agora não pelo lado do conteúdo e sim a partir da estrutura, percebemos que ela exprime uma preferência pelo receber em detrimento do fazer e do realizar próprios quando está em jogo a razão última do ser humano.

Talvez se localize aí a diferença mais profunda entre o princípio cristão da esperança e o seu homônimo marxista. É verdade que o princípio marxista também baseia uma idéia de passividade, pois afirma que o proletariado sofredor será a salvação do mundo. Mas esse padecimento do proletariado que deverá desencadear a reviravolta de uma sociedade sem classes precisa realizar-se concretamente pela forma ativa da luta de classes. Essa é a única maneira de o padecimento se tornar "salvífico", destituindo do poder a classe dominante e introduzindo a igualdade de todos os homens.

Se a cruz de Cristo é um sofrer "em prol de", a paixão do proletariado é, na visão marxista, umaluta contra; se a cruz é essencialmente a obra do indivíduo em prol do todo, a outra paixão é essencialmente a tarefa que uma massa organizada em forma de partido realiza em proveito próprio. Vê-se, portanto, que os dois caminhos correm em direções opostas, apesar de estar próximos em seu ponto de partida.

Na perspectiva cristã é esta a situação de fato: o ser humano não chega verdadeiramente a si próprio por meio do que ele faz e sim por meio do que ele recebe. Ele precisa aguardar o dom do amor, pois o amor só pode ser recebido como dom. Não se pode "produzi-lo" sem a participação do outro; é necessário esperar até que o outro nos dê amor. E só existe uma única maneira de se tornartotalmente ser humano: ser amado, permitir que sejamos amados.

O fato de o amor ser a maior possibilidade e a mais profunda necessidade do ser humano, e o fato de essa condição mais necessária ser ao mesmo tempo a mais livre e incoercível, significa que o ser humano necessita de um recebimento para ser "salvo". Quando ele se recusa a receber esse dom, ele destrói a si próprio. Uma atividade que se coloca a si mesma como absoluta e que pretende realizar a condição humana exclusivamente por suas próprias forças está em contradição com a sua natureza. Louis Evely conseguiu expressar essa verdade de uma forma esplêndida:

"Toda a história da humanidade foi desvirtuada e sofreu uma ruptura por causa da idéia falsa que Adão tinha de Deus. Ele queria ser igual a Deus. Espero que vocês nunca tenha identificado o pecado de Adão nessa pretensão... Não fora o próprio Deus que o convidara a pensar assim? Adão apenas se enganou no modelo. Ele pensou que Deus fosse um ser independente, autônomo, auto-suficiente; e foi para ser como ele que ele se revoltou e desobedeceu. Mas quando Deus se revelou, quando Deus quis mostrar quem ele era, ele se manifestou como amor, carinho, como derramamento de si próprio, como agrado infinito num outro. Afeto, dependência. Deus se mostra obediente, obediente até a morte. Pensando em tornar-se Deus, Adão se desvirtuou completamente dele. Ele se isolou na solidão, enquanto Deus era comunhão"

Introdução ao Cristianismo - p.197,198 - 1968

PAX CHRISTI
Diogo Pitta

sábado, 29 de outubro de 2011

Evangelizar através da Beleza.


Os impressionantes avanços técnicos e científicos do século XX transformaram a fundo a vida quotidiana do homem. Graças a eles tornou-se possível executar sem esforço tarefas até então insuspeitadas. Mas essa praticidade acabou por conferir, de outro lado, uma simplificação em todos os atos sociais. As cerimoniosas manifestações de respeito, por exemplo, foram paulatinamente substituídas por maneiras cada vez mais informais. No mesmo sentido, qualquer ornato passou a ser considerado desnecessário por não ser prático. E no intuito de procurar a funcionalidade em tudo, acabou-se por se distanciar do que é transcendente ou sobrenatural.
Nessa conjuntura, não faltaram vozes que alertaram ter o mundo moderno quase exilado a beleza do dia a dia. Entre elas, a do Papa Paulo VI que, por ocasião do encerramento do Concílio Vaticano II, lançou na Mensagem aos Artistas este apelo: "O mundo no qual vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero."
Sente-se o homem órfão do belo. Sua alma busca valores perenes que reportem às verdades transcendentes. Porque "assim como a corça suspira pelas águas vivas" (Sl 41, 2), o ser humano tem sede de Deus, Beleza absoluta e eterna. Para saciar esse legítimo anseio, dispõe a Igreja de um inestimável instrumento: a Liturgia. Se a ilibada doutrina católica ilumina e orienta a humanidade há dois mil anos, talvez tenha chegado o momento de atingir, sobretudo pela beleza expressa nos ritos, as gerações pós-modernas tão avessas a estudos teóricos. Não estará reservado para a presente quadra histórica o recurso àquilo que São Tomás denomina convertio ad phantasmata? Haverá, em última análise, hoje em dia, outro meio mais idôneo de evangelizar?
A Liturgia, devidamente executada e apresentada, é mais eficaz na evangelização do que qualquer documento escrito, porque atinge todas as pessoas, independente de cultura, idade ou idioma. Nela, o belo se manifesta e fala por si. Sem necessidade de raciocínios, eleva a alma diretamente ao sagrado, abrangendo todos os sentidos do homem.
Com efeito, qual a razão de os paramentos litúrgicos terem sido, em todos os tempos, elaborados com os mais requintados tecidos ricamente bordados? Por que a Esposa de Cristo destilou delicados incensos para representar nossa oração subindo ao Pai? E para que os sinos e o órgão, veneráveis vozes da Santa Igreja, senão para melhor nos elevar às realidades celestes? E a beleza e riqueza dos templos e dos objetos utilizados no culto?
A solenidade, a pompa e o esplendor da Liturgia criam um ambiente atemporal que liga o passado ao presente, o visível ao invisível, o terreno ao celestial, enfim, a criatura ao Criador.
Realmente, como bem lembrou o Beato João Paulo II, nunca como hoje se pode dizer tão a propósito que a beleza salvará o mundo!
Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Set/2011, n. 117, p. 5
PAX CHRISTI
Diogo Pitta

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A MISSA DE TODOS OS SÉCULOS




Desde o século II, temos o testemunho de São Justino, mártir, sobre as grandes linhas do desenrolar da celebração eucarística. Permaneceram as mesmas até aos nossos dias, em todas as grandes famílias litúrgicas. Eis o que ele escreve, cerca do ano 155, para explicar ao imperador pagão Antonino Pio (138-161) o que fazem os cristãos:

"No dia que chamam Dia do Sol, realiza-se a reunião num mesmo lugar de todos os que habitam a cidade ou o campo. Lêem-se as memórias dos Apóstolos e os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo o permite. Quando o leitor acabou, aquele que preside toma a palavra para incitar e exortar à imitação dessas belas coisas. Em seguida, levantamo-nos todos juntamente e fazemos orações» (175) «por nós mesmos [...] e por todos os outros, [...] onde quer que estejam, para que sejamos encontrados justos por nossa vida e acções, e fiéis aos mandamentos, e assim obtenhamos a salvação eterna. Terminadas as orações, damo-nos um ósculo uns aos outros.
Depois, apresenta-se àquele que preside aos irmãos pão e uma taça de água e vinho misturados. Ele toma-os e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças (em grego: eucharistian) longamente, por termos sido julgados dignos destes dons. Quando ele termina as orações e acções de graças, todo o povo presente aclama:Ámen.
[...] Depois de aquele que preside ter feito a acção de graças e de o povo ter respondido, aqueles a que entre nós chamamos diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água "eucaristizados" e também os levam aos ausentes." 
 Extraído de Catecismo da Igreja Católica - A celebração litúrgica da Eucaristia - 1345


PAX CHRISTI


Diogo Pitta

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Santo Inácio de Antioquia


   O Coliseu romano guarda até hoje o calor dos feitos heróicos que se passaram em sua arena. Ali, a graça do martírio penetrou profundamente e legou à Cristandade uma de suas mais gloriosas páginas. O exemplo do primeiro bispo de Antioquia encerratoda a doçura e a força com que a Santa Igreja lançou suas divinas raízes

Quem já teve a oportunidade de viajar para Roma e conhecer seus antiqüíssimos monumentos - obras-primas da inteligência e da capacidade de nossos ancestrais - certamente terá experimentado uma forte atração ao deparar com o anfiteatro Flaviano, mais conhecido pelo nome de Coliseu.
Sólido e bem edificado, com suas galerias de arcos tipicamente romanos, ele atravessa os séculos, insensível ao tempo, como imagem de um passado que poucos sabem admirar. Com efeito, hoje em dia o Coliseu é objeto da incessante curiosidade dos turistas que o visitam durante todo o ano. Muitos formam intermináveis filas para nele ingressar, com o desejo de fotografá-lo e depois vangloriar-se de ter estado num dos locais mais famosos do mundo; outros percorremno com o mero intuito de constatar seu valor artístico e estrutural; poucos são, porém, os que para lá se dirigem na intenção de rezar.
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"Instigai os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu 
corpo para não ser pesado a ninguém. Suplicai a Deus por mim, que por este
meio me torne uma hóstia para Deus"
Santo Inácio de Antioquia sendo devorado pelos leões
Igreja de São Clemente - Roma










O Coliseu, teatro de crueldades
O imperador Vespasiano, invejoso da afetuosa lembrança que o povo guardava a respeito de César Augusto e sabendo que este, antes da sua morte, prometera construir um imenso anfiteatro que excedesse em esplendor todos os edifícios do mundo, concebeu a idéia de realizar este plano e assim rivalizar em fama com aquele seu predecessor. No segundo ano após sua ascensão ao trono (72 d.C.), Vespasiano iniciou sua obra. Entretanto, também a ele não seria dado ver o objeto de suas ambições, e a morte colheu-o antes de ser completada a construção, que só seria dedicada no ano 80 d.C., por seu filho Tito. Este último teve grande parte na ereção do anfiteatro, empregando nos trabalhos aproximadamente 50 mil prisioneiros, trazidos de sua vitoriosa campanha na Judéia.
Construída especialmente para ser palco daqueles jogos de gladiadores que os romanos tanto apreciavam, a gigantesca mole estava, porém, reservada para servir de quadro a combates de fé e de heroísmo muito mais gloriosos do que desprezíveis eram aqueles espetáculos pagãos! Se os divertimentos do Coliseu deixaram uma mancha no passado por causa das horríveis cenas de crueldade ali representadas, outros fatos, sob o ponto de vista sobrenatural, constituem uma das mais belas páginas da história da Santa Igreja.
Pedestal de bem-aventurados
É com espírito de piedade que deve penetrar no Coliseu o verdadeiro peregrino católico. Bastará permanecer em silêncio por um curto tempo, para perceber os imponderáveis e inverossímeis de fé, força e coragem que habitam sob essas numerosas arcadas. É evocativo esse edifício, no qual cada pedra tem um belo fato para contar e até as gramas e os musgos mais recentes desejariam dizer uma palavra sobre aquele passado feito de sangue, dor e glória. Contemplando mais detidamente essa arena, outrora pedestal de tantos bem-aventurados, podemos ainda divisar os compartimentos onde as feras eram mantidas na fome. Vê-se também ao lado destes as celas que aprisionaram os que hoje constituem uma verdadeira legião, no gozo da visão beatífica. Essas veneráveis ruínas, nas quais refulge um misterioso brilho sobrenatural, parecem cantar, ao longo dos séculos, a célebre frase latina: sine sanguine non fit remissio; lembrando aos homens que, para ser verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, é necessário primeiro segui- Lo até as ignomínias do Calvário para depois participar do triunfo da ressurreição. Sim, foi sobre essas pedras benditas, banhadas de sangue católico, que nasceram as raízes da era em que a filosofia do Evangelho dominou sobre todos os povos.
Ouçamos, pois, atentos, um dos emocionantes feitos que esses valos, essas muralhas e arcadas têm a nos narrar.
Inácio, o Teóforo
Corria o ano 106 da era cristã. O imperador Trajano festejava sua vitória sobre Decébalo, rei da Dácia. Querendo manifestar seu reconhecimento aos deuses, a quem atribuía seu recente sucesso, Trajano organizou uma perseguição contra os cristãos que negassem a existência dessas divindades. Entre os condenados estava um venerável ancião, presa de grande valor, - pois se tratava do bispo de uma das cidades de maior importância naquela época - varão que gozava de muita estima e autoridade entre os fiéis da Ásia Menor, por ter sido discípulo do evangelista São João e designado pelo próprio São Pedro para assumir o cargo naquela Igreja: Inácio de Antioquia.
Segundo uma antiga tradição, o primeiro encontro entre o imperador e Inácio dera-se quando este último, sabendo da passagem do césar por sua diocese, fora apresentar-se voluntariamente a ele. Submetido a um interrogatório no qual Trajano tratou-o de "espírito malvado", respondeu o santo com majestade: "Ninguém pode chamar a Teóforo de espírito malvado". "Quem é o Teóforo ou portador de Deus?" perguntaram-lhe."É aquele que leva a Cristo em seu peito..." Instado pelo imperador para que se explicasse mais sobre essa afirmação, o homem de Deus declarou: "Está escrito: ‘Habitarei e andarei no meio deles'" (2 Cor 6, 16). Assim, por essas palavras, ele mesmo dava testemunho de um milagre que viria a ser confirmado após o seu martírio.
Trajano ordenou, pois, que Inácio fosse acorrentado e conduzido a Roma, sob a custódia de dez soldados, para ali ser lançado às feras no anfiteatro Flaviano.
Dolorosa viagem, desfile triunfal
Grande foi a consternação dos fiéis ao conhecerem a sentença que recaíra sobre seu amado pastor. Ele, pelo contrário, regozijava-se e não deixava de dar graças a Deus por ter sido achado digno de tão grande misericórdia. Já antes da partida, embarcando no porto de Selêucia, a notícia de sua detenção espalhara-se por aquelas regiões e de todas as partes acorriam os cristãos para vê-lo passar e dar um último adeus àquele que os precederia no Reino dos Céus. A dolorosa viagem viu-se, então, transformada em verdadeiro desfile triunfal. Em Esmirna, o bispo São Policarpo, acompanhado de seu rebanho, acolheu- o com manifestações de homenagem e respeito. Também as comunidades de Éfeso, Trales e Magnésia foram- lhe ao encontro em grande multidão, desejosas de pedir sua bênção e testemunhar os padecimentos daquele atleta de Cristo. Ele, de seu lado, não esquecera a missão que o Senhor lhe confiara e continuava a exercer seu ministério, apesar de ter as mãos apertadas por grilhões. A muitos batizou pelo caminho, a outros edificou pelas suas palavras cheias de unção, e a um número incontável inflamou na caridade, arrastando-os com seu exemplo a acompanhá-lo no martírio.

Seu zelo incansável levou-o a escrever sete cartas, dirigidas àquelas mesmas Igrejas que tão fervorosamente o haviam recebido. Seus escritos, verdadeiros tesouros de doutrina e espiritualidade, podem ser considerados como "a segunda formulação doutrinária cristã" .
Zeloso pregador da doutrina
Uma de suas principais preocupações estava na união que os fiéis deviam manter com Jesus Cristo, através da legítima hierarquia: bispos e presbíteros. Assim, exortava ele na carta aos magnésios:"Esforçai-vos por ficar firmes na doutrina do Senhor e dos apóstolos, para que tudo quanto fizerdes tenha bom êxito na carne e no espírito, pela fé e pela caridade, no Filho, no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com vosso digno bispo e a bem entretecida coroa espiritual de vosso presbitério, juntamente com os diáconos agradáveis a Deus. Sede submissos ao bispo e uns aos outros como, em sua humanidade, Jesus Cristo ao Pai, e os apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, para que a união seja corporal e espiritual."  Em outra passagem, aconselhava a seu amigo Policarpo: "Tem cuidado pela unidade, pois nada há de melhor."
Ao bispo de Antioquia é devida a honra de ter dado à Santa Igreja, por primeira vez, o glorioso título de católica: "Onde estiver o bispo, ali estarão também as multidões, da mesma forma que onde estiver Jesus Cristo, ali estará a Igreja Católica".
 Também foi ele o defensor de um ponto que só viria a ser elevado à categoria de dogma séculos mais tarde: o parto virginal da Santa Mãe de Deus. Assim escreveu aos efésios: "ao príncipe deste mundo foi ocultada a virgindade de Maria, seu parto e também a morte do Senhor". Aos seus caros esmirnenses também afirmava: "Crendo de igual modo que verdadeiramente nasceu da Virgem, foi batizado por João ‘para que nele se cumprisse toda a justiça.'" 
A doutrina de Inácio era clara e segura; ele a haurira dos lábios daquele discípulo a quem tantos mistérios haviam sido revelados ao repousar a cabeça sobre o peito do Verbo Encarnado e nos longos anos de convivência com Maria Santíssima.
"Procuro aquele que morreu por nós!"
Entretanto, se as cartas deste insigne doutor manifestam toda a riqueza de seu ensinamento teológico, uma outra ainda, aquela enviada aos romanos, deixa entrever o sublime ardor de sua alma, elevada aos píncaros da mais pura mística. Tendo-lhe chegado a notícia de que os fiéis de Roma procuravam interpor toda sua influência para afastar dele a mortal condenação, apressou-se em dirigir- lhes, desde Esmirna, uma comovedora súplica: "Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplicovos: não demonstreis por mim uma benevolência intempestiva. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus. Sou trigo de Deus: que seja eu triturado pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo!
Instigai, ao contrário, os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu corpo para não ser pesado a ninguém, depois de adormecer. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo, quando o mundo não mais vir sequer o meu corpo. Suplicai a Deus por mim, que por este meio me torne uma hóstia para Deus. [...]
Que nada, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis, segure o meu espírito, a fim de que eu possa alcançar a Jesus Cristo. Que o fogo, a cruz, um bando de feras, os dilaceramentos, os cortes, a deslocação dos ossos, o esquartejamento, as feridas pelo corpo todo, os duros tormentos do diabo venham sobre mim para que eu ganhe unicamente a Jesus Cristo! [...]
Procuro aquele que morreu por nós: quero aquele que por nós ressuscitou. Meu nascimento está iminente. Perdoai- me, irmãos! Não me impeçais de viver, não desejeis que eu morra, pois desejo ser de Deus. [...]
 
Vivo, vos escrevo, desejando morrer. Meu amor está crucificado. Não há em mim um fogo que busque alimentarse da matéria, apenas uma água viva e murmurante dentro de mim, dizendome em segredo: ‘Vem para o Pai!' [...]
Se for martirizado, vós me quisestes bem. Se for rejeitado, vós me odiastes." 
Expressões de tão heróica caridade só poderiam brotar de um coração tomado pela graça do martírio de maneira superabundante. Com efeito, assim nos explica São Tomás de Aquino: "Entre todos os atos de virtude, o martírio é aquele que manifesta no mais alto grau a perfeição da caridade. Porque tanto mais se manifesta que alguém ama alguma coisa, quanto por ela despreza uma coisa amada e abraça um sofrimento. É evidente que entre todos os bens da vida presente aquele que o homem mais preza é a vida e, ao contrário, aquilo que ele mais odeia é a morte, principalmente quando vem acompanhada de torturas e suplícios por medo dos quais ‘até os próprios animais ferozes se afastam dos prazeres mais desejáveis', como diz Agostinho. Deste ponto de vista, é evidente que o martírio é, por natureza, o mais perfeito dos atos humanos, enquanto sinal do mais alto grau de amor, segundo a palavra da Escritura: ‘Não existe maior prova de amor do que dar a vida por seus amigos.'" .
Um lutador resignado só pode ser traidor
Esta excelência da caridade que pervadia o interior de nosso santo, só tendia a crescer à medida em que se sucediam as etapas da viagem que o aproximavam da tão almejada meta. Embarcando no porto de Dirraquio - sempre sob o olhar vigilante dos guardas, os quais ele mesmo chamava de "dez leopardos", a causa dos maus tratos que lhe infligiam - enfrentou uma longa travessia, bordejando o sul da Itália e, por fim, desembarcou em Óstia, a 20 de dezembro do ano 107, último dia das festas públicas que se celebravam em Roma.
Na orgulhosa metrópole dos imperadores comemorava-se ainda o triunfo de Trajano sobre os dácios. Durante 123 dias haviam-se prolongado os espetáculos nos quais morreram 10.000 gladiadores e 12.000 feras. O bispo Inácio era esperado com ansiedade pela turba pagã, pois as vítimas ilustres e de aspecto venerável exerciam maior atração nos jogos circenses. Por isso, os soldados para lá conduziram-no sem demora. Os cristãos receberam-no às portas da cidade, com manifestações de sincera admiração e respeito. Alegravam-se ao vê-lo, mas lamentavam, ao mesmo tempo, que lhes fosse arrebatado tão cedo. Rogaram-lhe, então, que obtivesse de Deus o favor de que algumas relíquias suas lhes fossem deixadas após o martírio. Embora contra sua vontade - pois ele desejava ser devorado por inteiro - o santo varão acedeu bondosamente em fazerse cargo de pedido tão filial.
Arrastando suas cadeias, Inácio atravessou as ruas pavimentadas da capital do império: ao longe podia divisar os imponentes muros do Coliseu dominando o vale, circundado pelos montes Palatino, Esquilino e Célio. Aquele edifício representava para ele o termo de seus anelos, a realização de suas esperanças mais íntimas, a consumação de seu holocausto. Caminhava apressadamente, não com a resignação de um condenado, mas impelido pelos ardores de entusiasmo que não mais cabiam dentro de sua alma, convicto de que o lutador resignado é traidor. Aquele edifício servir-lhe-ia de túmulo e de altar, ao passo que seria o pedestal de onde seu espírito voaria ao céu.
"Desejaria ser triturado como o trigo"
Uma numerosa multidão acorrera ao Coliseu para presenciar o sangrento espetáculo e se deliciar com o destroçamento do corpo do mártir. Este, sereno e alegre, não manifestou a menor vacilação quando as grades foram abertas e entrou no vasto anfiteatro, à espera do trágico momento em que as bestas ferozes fossem soltas. As vaias e os escárnios daqueles pagãos para ele nada significavam. Pelo contrário, eram-lhe uma razão a mais para crer na invisível coorte de bem-aventurados a esperá-lo com uma palma e uma coroa.
Ouve-se um hurra na turbamulta, sucedido por silêncio e um grande suspense: os famintos leões irromperam na arena e, impetuosos, avançaram sobre a pura e inocente vítima para devorá-la. Entretanto, com a majestade e império que possuem as almas tomadas pelo Espírito Santo, o mártir estancou-as a meio caminho, com um simples gesto de mão.
Num movimento solene, ajoelhou-se e, elevando os braços ao céu, clamou em alta voz: "Senhor, aqueles que me acompanharam e que são também vossos filhos, pediram-me que rezasse a fim de que algo lhes sobre deste martírio, para estímulo de sua fé. Eu, porém, desejaria ser triturado como o trigo para vos ser oferecido como hóstia pura. Senhor, fazei a vontade deles e também a minha, eu vos peço".
Após a oração, assistida com estupefação pela horda criminosa e pagã e pelas feras, com respeito, eis que ainda mais grandioso e nobre gesto permitiu a estas últimas sair de seu miraculoso encantamento e dar vazão aos instintos de sua voraz natureza.
Em poucos minutos, lá entravam os gladiadores a agrilhoar aqueles animais que acabavam de saciar seu bestial apetite com as carnes de um novo serafim. A arena vazia, o espetáculo terminado, retirou-se vagarosa e frustrada a assistência. Que demonstração de fé e de nobreza haviam presenciado!
"Põe-me como um selo em teu coração"
Os cristãos por ali ainda permaneceram à espera do cair do sol. E quando o manto da noite passou a cobrir a cidade de Roma, penetraram na arena à procura das poeiras tornadas relíquias ao serem embebidas pelo sangue daquele que agora os precedia na glória celeste.
Um milagre! Encontraram intactos um fêmur e o coração! Tomados de sobrenatural entusiasmo, caminharam sem medir distâncias, rumo às catacumbas e depois de algumas horas, constataram, à luz das lamparinas, outro milagre: num círculo, as veias e artérias do coração do santo mártir, constituíam as célebres palavras: Iesus Nazarenus, Rex iudeorum.
Inácio, o Teóforo, o portador de Deus, atestara seu nome com aquele comovedor prodígio. Seu coração amante fora subjugado e modelado pelo Amado, segundo aquele pedido do Cântico: "Põe-me como um selo em teu coração" (Ct 8, 6). Nem as tribulações, nem as correntes, nem os suplícios, nem a própria morte o haviam podido separar do amor de Cristo. Por sua santa vida, rica em pregações, em caridade e exemplos, assemelhara-se ao Divino Mestre, imitando- o enquanto verdadeiro Pastor das ovelhas. Por sua generosa entrega levada ao extremo da imolação, alcançara para sempre aquela "única coisa necessária" (Lc 10, 42): o convívio eterno com Aquele a quem só procurara na Terra, Jesus!
A este santo varão de Deus bem poderiam ser aplicadas as belas palavras de um autor medieval: "Forte é o amor, que tem poder para privarnos do dom da vida. Forte é o amor, que tem poder para restituir-nos o gozo de uma vida melhor. Forte é a morte, poderosa para despojar-nos do revestimento deste corpo. Forte é o amor, poderoso para nos roubar os despojos da morte e no-los entregar de novo.
Forte é a morte, a ela o homem não pode resistir. Forte é o amor que pode vencê-la, embotar-lhe o aguilhão, travar- lhe o ímpeto, quebrantar-lhe a vitória." 
E uma vez mais caiu a noite sobre a grandiosa mole do Coliseu. As areias do circo pagão, regadas pelo sangue daquele que portara a seu Redentor no peito, transformaramse de novo em campo arado e fértil, de onde germinariam muitos outros filhos da Esposa Mística de Cristo.(Revista Arautos do Evangelho, Out/2007, n. 70, p. 32 à 37)
Extraído de Arautos.org.br
PAX CHRISTI
Diogo Pitta

terça-feira, 18 de outubro de 2011

São Lucas, Evangelista - Papa Bento XVI


Entre as glórias dessa Igreja, de grande significado é a particular relação que a une à memória do Evangelista Lucas, cujas relíquias segundo a tradição são conservadas na esplêndida Basílica de Santa Justina:  tesouro precioso e dom verdadeiramente singular, ali trazido através de um caminho providencial. Com efeito, São Lucas segundo antigos testemunhos morreu na Beócia e foi sepultado em Tebas. Dali, como refere São Jerónimo (cf. De viris ill. VI, I), os seus ossos foram transladados para Constantinopla, na Basílica dos Santos Apóstolos. Depois, conforme as fontes que as pesquisas estão a explorar, foram transferidos para Pádua.
Uma ocasião propícia para reavivar a atenção e a veneração por esta "presença", que se enraíza na história cristã dessa Cidade, foi agora oferecida pelo reconhecimento do corpo do Santo Evangelista, assim como pelo Congresso Internacional a ele dedicado. Quis dar-se a este uma significativa inspiração ecuménica, ressaltada também pelo facto de que o Arcebispo ortodoxo de Tebas, Jerónimo, pediu um fragmento das relíquias, a depositar lá onde é ainda hoje venerado o primeiro sepulcro do Evangelista.
As celebrações que se realizam por ocasião do mencionado Congresso oferecem um novo estímulo, para que a dilecta Igreja que está em Pádua redescubra o verdadeiro tesouro que São Lucas nos deixou:  o Evangelho e os Actos dos Apóstolos.
Ao alegrar-me pelo empenho despendido nessa direcção, desejo deter-me brevemente nalguns aspectos da mensagem de São Lucas, para que essa Comunidade possa haurir dela orientação e encorajamento para o seu caminho espiritual e pastoral.
2. Como ministro da Palavra de Deus (cf. Lc 1, 2), Lucas introduz-nos no conhecimento da luz discreta e ao mesmo tempo penetrante que dela promana, iluminando a realidade e os acontecimentos da história. O tema da palavra de Deus, fio áureo que atravessa os dois escritos que compõem a obra de São Lucas, unifica também as duas épocas por ele contempladas, o tempo de Jesus e o da Igreja. Como que narrando a "história da palavra de Deus", o relato de Lucas acompanha a sua difusão, da Terra Santa até aos confins do mundo. O caminho proposto pelo terceiro Evangelho está profundamente marcado pela escuta desta palavra que, como semente, deve ser acolhida com bondade e prontidão de coração, superando os obstáculos que a impedem de criar raízes e produzir fruto (cf. Lc 8, 4-15).
Um aspecto importante que Lucas evidencia é o facto que a Palavra de Deus cresce e se afirma de maneira misteriosa, também através do sofrimento e num contexto de oposições e perseguições (cf. Act 4, 1-31; 5, 17-42; passim). A palavra que São Lucas indica é chamada a fazer-se, para todas as gerações, um evento espiritual capaz de renovar a existência.  A  vida  cristã,  suscitada  e sustentada pelo Espírito, é diálogo interpessoal que se funda precisamente na Palavra que o Deus vivo nos dirige, pedindo-nos que a acolhamos, sem reservas, na mente e no coração. Em síntese, trata-se de se tornar um discípulo disposto  a  escutar  com  sinceridade  e disponibilidade o Senhor, a exemplo de Maria de Betânia, que "escolheu a melhor parte", porque "se sentou aos pés do Senhor para escutar a Sua palavra" (cf. Lc 10, 38-42).
Nesta perspectiva, desejo encorajar, na programação pastoral dessa dilecta Igreja, a proposta das "Semanas bíblicas", o apostolado bíblico e as peregrinações à Terra Santa, o lugar onde a Palavra se fez carne (cf. Jo 1, 14). Desejaria também estimular todos presbíteros, religiosos, religiosas e leigos a praticarem e promoverem a lectio divina, até fazerem com que a meditação da Sagrada Escritura se torne um elemento essencial da própria vida.
3. "Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me" (Lc 9, 23).
Para Lucas, ser cristão significa seguir Jesus no caminho que Ele percorre (19, 57; 10, 38; 13, 22; 14, 25). É Jesus mesmo que toma a iniciativa e chama a segui-Lo, e fá-lo de modo decisivo, inconfundível, mostrando assim a sua identidade completamente fora do comum, o seu mistério de Filho, que conhece o Pai e O revela (cf. Lc 10, 22). Na origem da decisão de seguir Jesus está a opção fundamental em favor da sua Pessoa. Se não se é fascinado pelo rosto de Cristo não se consegue segui-Lo com fidelidade e constância, também porque Jesus caminha por uma via impérvia, põe condições extremamente exigentes e se dirige rumo a um destino paradoxal, o da Cruz. Lucas sublinha que Jesus não ama compromissos e requer o empenho da pessoa inteira, um decisivo desprendimento de toda a nostalgia do passado, dos condicionamentos familiares, da posse dos bens materiais (cf. Lc 9, 57-62; 14, 26-33).
O homem será sempre tentado a atenuar estas exigências radicais e a adaptá-las às próprias debilidades, ou a desistir do caminho empreendido. Mas é precisamente sobre isto que se decide a autenticidade e a qualidade da vida da comunidade cristã. Uma Igreja que vive no compromisso seria como o sal que perde o sabor (cf. Lc 14, 34-35).
É preciso abandonar-se ao poder do Espírito, capaz de infundir luz e sobretudo amor a Cristo; é necessário abrir-se ao fascínio interior que Jesus exerce sobre os corações que aspiram à autenticidade, rejeitando as meias medidas. Isto é certamente difícil para o homem, mas torna-se possível com a graça de Deus (cf. Lc 18, 27). Por outro lado, se o seguimento de Cristo implica que se leve cada dia a Cruz, esta, por sua vez, é árvore de vida que conduz à ressurreição. Lucas, que sublinha as exigências radicais do seguimento de Cristo, é também o Evangelista que descreve a alegria daqueles que se tornam discípulos de Cristo (cf. Lc 10, 20; 13, 17; 19, 6.37; Act 5, 41; 8, 39; 13, 48).
4. É conhecida a importância que Lucas dá, nos seus escritos, à presença e à acção do Espírito, a partir da Anunciação, quando o Paráclito desce sobre Maria (cf. Lc 1, 35), até ao Pentecostes quando os Apóstolos, impelidos pelo dom do Espírito, recebem a força necessária para anunciar ao mundo inteiro a graça do Evangelho (cf. Act 1, 8; 2, 1-4). É o Espírito Santo que plasma a Igreja. São Lucas delineou nos traços da primeira comunidade cristã o modelo sobre o qual a Igreja de todos os tempos deve reflectir-se:  é uma comunidade unida "num só coração e numa só alma", assídua na escuta da Palavra de Deus; uma comunidade que vive de oração, com alegria parte o Pão eucarístico, abre o coração às necessidades dos mais pobres até compartilhar com eles os bens materiais (cf. Act 2, 42-47; 4, 32-37). Toda a renovação eclesial deverá haurir nesta fonte inspiradora o segredo da própria autenticidade e vigor.
A partir da Igreja-Mãe de Jerusalém, o Espírito amplia os horizontes e impele os Apóstolos e as Testemunhas até atingirem Roma. No pano de fundo destas duas cidades desenvolve-se a história da Igreja primitiva, uma Igreja que cresce e se dilata, não obstante as oposições que a ameaçam a partir de fora e as crises que a partir de dentro lhe dificultam o caminho. Mas em todo este percurso, o que realmente importa a Lucas é apresentar a Igreja na essência do seu mistério:  ele é constituído pela perene presença do Senhor Jesus que, agindo nela com a força do seu Espírito, lhe infunde consolação e coragem nas provações do caminho na história.
5. Segundo uma piedosa tradição, Lucas é considerado pintor da imagem de Maria, a Virgem Mãe. Mas a verdadeira imagem que Lucas traça da Mãe de Jesus é a que emerge das páginas da sua obra:  em cenas que se tornaram familiares ao Povo de Deus, ele delineia uma imagem eloquente da Virgem. A Anunciação, a Visitação, a Natividade, a Apresentação no Templo, a vida na casa de Nazaré, a disputa com os doutores e a perda de Jesus e o Pentecostes ofereceram uma ampla matéria, ao longo dos séculos, ao incessante trabalho de pintores, escultores, poetas e músicos.
Oportunamente, portanto, durante o Congresso Internacional esteve prevista uma reflexão sobre o tema da arte, e ao mesmo tempo foi preparada uma exposição rica de obras apreciáveis.
Contudo, o mais importante a captar é que, através de quadros da vida mariana, Lucas nos introduz na interioridade de Maria, fazendo com que descubramos ao mesmo tempo a sua função singular na história da salvação.
Maria é aquela que pronuncia o "fiat", um sim pessoal e total à proposta de Deus, definindo-se "Escrava do Senhor" (Lc 1, 38). Esta atitude de total adesão a Deus e disponibilidade incondicional à sua Palavra constitui o modelo mais excelso da fé, a antecipação da Igreja como comunidade dos fiéis.
A vida de fé cresce e desenvolve-se em Maria na meditação sapiencial das palavras e dos acontecimentos da vida de Cristo (cf. Lc 2, 19.51). Ela "medita no coração" para compreender o sentido profundo das palavras e dos factos, o assimilar e depois também o comunicar aos outros.
O Cântico do Magnificat (cf. Lc 1, 46-55) manifesta outro importante traço da "espiritualidade" de Maria:  Ela encarna a figura do pobre, capaz de repor plenamente a sua confiança em Deus, que abate os poderosos dos tronos e exalta os humildes.
Lucas delineia-nos também a figura de Maria na Igreja dos primeiros tempos, mostrando-a presente no Cenáculo à espera do Espírito Santo:  "E todos (os onze Apóstolos) unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, em companhia de algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e de Seus irmãos" (Act 1, 14).
O grupo reunido no Cenáculo constitui como que a célula germinal da Igreja. No seu interior Maria desempenha um dúplice papel:  por um lado, intercede pelo nascimento da Igreja, por obra do Espírito Santo; por outro, comunica à Igreja nascente a sua experiência de Jesus.
A obra de Lucas propõe assim à Igreja que está em Pádua um eficaz estímulo a valorizar a "dimensão mariana" da vida cristã no caminho do seguimento de Cristo.
6. Outra dimensão essencial da vida cristã e da Igreja, sobre a qual a narração de Lucas projecta luz viva, é a da missão evangelizadora. Lucas indica o fundamento perene desta missão, isto é, a unicidade e a universalidade da salvação operada por Cristo (cf. Act 4, 12). O evento salvífico da morte-ressurreição de Cristo não conclui a história da salvação, mas indica o início de uma nova fase, caracterizada pela missão da Igreja, chamada a comunicar a todas as nações os frutos da salvação operada por Cristo. Por esta razão, Lucas faz seguir ao Evangelho, como consequência lógica,  a  história  da  missão.  É o próprio Ressuscitado que dá aos Apóstolos o "mandato missionário":  "Abriu-lhes, então, o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes:  "Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto"" (Lc 24, 45-48).
A missão da Igreja começa no Pentecostes "de Jerusalém" para se estender "até aos confins da terra". Jerusalém não indica só um ponto geográfico. Pelo contrário, está a significar um ponto fulcral da história da salvação. A Igreja não parte de Jerusalém para a abandonar, mas para enxertar as nações pagãs na oliveira de Israel (cf. Rm 11, 17).
A tarefa da Igreja consiste em introduzir na história o fermento do Reino de Deus (cf. Lc 13, 20-21). Tarefa esta que exige empenhamento, descrita nos Actos dos Apóstolos como um itinerário cansativo e acidentado, mas confiado a "testemunhas" repletas de entusiasmo, audácia e alegria, disponíveis a sofrer e a dar a vida por Cristo. Esta energia interior é-lhes comunicada pela comunhão de vida com o Ressuscitado e pela força do Espírito que Ele dá.
Para a Igreja que está em Pádua, um grande recurso pode constituir o confronto contínuo com a mensagem do Evangelista, cujos restos mortais ali são conservados.
7. À luz desta visão de São Lucas, formulo votos por que essa Comunidade diocesana, em plena docilidade ao sopro do Espírito, saiba testemunhar com audácia criativa Jesus Cristo, quer no próprio território, quer, segundo a sua bela tradição, na cooperação missionária com as Igrejas da África, da América Latina  e  da  Ásia.
Este empenho missionário encontre um ulterior impulso neste Ano jubilar, que celebra os dois mil anos do nascimento de Cristo e chama a Igreja a uma profunda renovação de vida. Precisamente o Evangelho de Lucas apresenta o discurso com que Jesus, na Sinagoga de Nazaré, proclama "o ano de graça do Senhor", anunciando a salvação como libertação, cura e boa nova aos pobres (cf. Lc 4, 14-20). Sucessivamente, o próprio Evangelista apresentará a força purificadora do amor misericordioso do Salvador, em páginas tocantes como a da ovelha tresmalhada e do filho pródigo (cf. Lc cap. 15).
O nosso tempo tem mais necessidade do que nunca deste anúncio. Exprimo, pois, o meu ardente encorajamento a essa Comunidade, para que o empenho em prol da nova evangelização seja sempre mais forte e incisivo. Exorto também a prosseguir e a desenvolver as iniciativas ecuménicas, que foram iniciadas com algumas Igrejas ortodoxas em termos de colaboração no plano das obras de caridade, da cultura teológica, da pastoral. O Congresso Internacional sobre São Lucas represente uma etapa significativa no caminho dessa Igreja, ajudando-a a enraizar-se sempre mais no terreno da Palavra de Deus e a abrir-se com impulso renovado à comunhão e à missão.
É com estes votos que lhe concedo de coração, venerado Irmão, e a quantos são confiados aos seus cuidados pastorais, uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 15 de Outubro de 2000. Mensagem do Santo Padre ao Congresso internacional sobre São Lucas


PAX CHRISTI

Diogo Pitta